Obí, o fruto sagrado dos orixás e a Bioquímica do Candomblé

Posted by Gunfaremim on 6 de março de 2014

Apresento aqui alguns fragmentos de um artigo muito interessante, que discute a Lei Federal 10639/03 sob a ótica da Bioquímica e do Candomblé. Quem se interessar segue ao final o link para leitura, em pdf, do artigo na integra.

 

A Bioquímica do Candomblé – Possibilidades Didáticas de Aplicação da Lei Federal 10639/03

Patrícia F. S. D. Moreira, Guimes Rodrigues Filho, Roberta Fusconi, Daniela F. C. Jacobucci

 

Obi (Cola sp.) Foto de Reginaldo Fernandes de Melo

“Preservar, cuidar e manter a fauna e a flora é condição fundamental para os participantes dessa manifestação cultural. Os ritos e rituais são propiciados por meio de folhas, banhos de águas naturais e por partes de animais consagrados aos orixás. “Ewe orixá, orixá ewe” – sem folhas, não há orixás, e sem orixás, não há contato com o sagrado, assim como com as águas das cachoeiras, dos rios, dos igarapés, do mar; a fortaleza das pedreiras; a biodiversidade das florestas. Enfim, podemos afirmar que a religião dos orixás está ligada à preservação da natureza que é parte fundadora da constituição dos seres (Botelho, 2010). Esses rituais envolvem adivinhação, banhos de cura e incensos, nos quais é necessário o uso de plantas para mediar a comunicação com os guias espirituais.”

 

Cola acuminata- Obì (Ioruba), Ví (Fon)/ noz de cola. Jardim Botânico do Rio de Janeiro

“Os negros africanos, apesar de terem perdido parte de sua cultura, introduziram no Brasil elementos relacionados à sua religião e à sua medicina. Entre esses elementos estão espécies de plantas consideradas pelos iorubás e pelos seus descendentes no Brasil de primordial importância nos rituais de iniciação em cerimônias tradicionais.

 

A noz-de-cola, que tem uso sacro na África Ocidental, no Brasil, tem uso sagrado no candomblé, na qual é conhecida como obi (seu nome iorubá). Para a mitologia iorubana preservada no Brasil na cultura religiosa dos terreiros, os orixás retornam à terra tomando o corpo dos devotos mortais. Nos rituais de preparação, entre outras coisas, é utilizado o obi (Prandi, 2005, apud Fusconi e Rodrigues Filho, 2009).

 

Dentre as várias espécies de plantas utilizadas nesses rituais, falaremos sobre a noz-de-cola e suas aplicações na Química em aulas do ensino médio, apontando possibilidades para o cumprimento da lei federal 10.639/03. Como exemplo, contextualizamos como a cafeína está presente em nosso cotidiano classificada como estimulante em diversos produtos, que também está presente na noz-de-cola e que possui um significado na cultura africana e afro-brasileira.”

 

Cola acuminata/ Floração do obi

“A cafeína. Esta está presente em bebidas de uso comum como chás, café e refrigerantes. Paralelamente é encontrada em vários produtos alimentícios, farmacêuticos e cosméticos. Os principais efeitos fisiológicos da cafeína no organismo humano são: o efeito estimulante, o diurético e a dependência química. A cafeína aumenta o metabolismo e, temporariamente, a concentração e a energia. Seus efeitos no consumo moderado são o relaxamento da musculatura lisa dos brônquios, do trato biliar, do trato gastrintestinal e de partes do sistema vascular. Afeta também a reparação do DNA ao inibir a ação de proteínas. A cafeína pode ser detectada em todo o corpo humano cinco minutos após o consumo e atinge a concentração máxima aos 20-30 minutos. É metabolizada no fígado e tem uma meia vida de cerca de 3-6 horas. Quando ingerida em excesso, pode causar vários sintomas desagradáveis, incluindo irritabilidade, dores de cabeça, insônia, diarreia e palpitações do coração.”

 

“A cafeína (1,3,7-trimetil-3,7-dihidro-1H-purina-2,6-diona) faz parte da família dos alcaloides, mais precisamente as metil-xantinas. Outras metil-xantinas importantes são a teofilina (3,7-dihidro-1,3-trimetil-1H-purina-2,6-diona) e a teobromina (3,7-dihidro-3,7-trimetil-1H-purina- 2,6-diona). A teobromina (encontrada também no chocolate) e a teofilina são duas dimetil-xantinas, com dois grupos metil, em contraste com a cafeína, que possui três grupos metil.”

Metil xantinas importantes

 

“As nozes-de-cola são as sementes das árvores do gênero Cola sp., nativas das florestas da África Ocidental. Na composição química, elas contêm, juntamente com outros compostos, grandes quantidades de cafeína e menores quantidades de teobromina, colatina e glicose. Todos esses são estimulantes: a cafeína afeta o sistema nervoso central, a teobromina ativa os músculos esqueléticos, a colatina atua sobre o coração e a glicose fornece energia para o corpo como um todo (Lovejoy, 1980). Segundo a ANVISA (2009), a noz-de-cola possui principalmente em sua composição cerca de 1,7% de taninos totais e 2,0% de cafeína.

 

Pé de Obi (Jardim Botânico do Rio de Janeiro)

A noz-de-cola foi introduzida nos países sul-americanos na época do comércio de escravizados africanos no século XVII.

Na Europa, nas Américas e na África Ocidental, as sementes são utilizadas na produção de diversas drogas farmacêuticas, vinhos e licores (Nienmenak et al., 2008). A bebida mais famosa feita à base de extrato de noz-de-cola é a Coca-Cola.”

“A noz-de-cola no Brasil pode ser encontrada na mata atlântica, assim como em casas de folhas e feiras-livres na forma de extratos e/ou desidratada. É conhecida popularmente entre os pais de santo e mães de santo como obi ou orobô e é utilizada para fins litúrgicos.”

 

“Segundo Almeida (apud Pires et al., 2003), a lógica do sistema etnobotânico do candomblé tem fundamento num culto que associa à prática religiosa um esforço terapêutico. Os babalorixás e yalorixás (sacerdotes), portadores de conhecimento etnomédico, prescrevem o uso das folhas, raízes, sementes e cascas para fins medicinais, banhos e outros propósitos ritualísticos relacionados a orixás específicos.

A noz-de-cola (cola acuminata R. Br.) possui ação psicoativa graças à ação dos alcaloides cafeína e teobromina que agem no sistema nervoso central, melhorando a fadiga, aclarando as ideias e aumentando o estado de vigília. No jogo de adivinhação (jogo de búzios), são utilizadas as nozes como mastigatório para, segundo os informantes, dar força às palavras (Camargo, 1999).”

 

OBS: A lei federal 10639/03 determina a obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana e afro-brasileira nas escolas. Essa lei foi alterada pela Lei 11.645 de 10 de março de 2008, passando a incorporar também a história e a cultura dos povos indígenas.


LEIA O ARTIGO EM PDF NO LINK: http://qnesc.sbq.org.br/online/qnesc33_2/03-EA3610.pdf

 

LEIA MAIS SOBRE O OBI: http://gunfaremim.com/?p=378

http://gunfaremim.com/?p=92

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