IGI, AS GRANDES ÁRVORES SAGRADAS

Posted by Gunfaremim on 25 de agosto de 2014

 

Ceiba pentandra/ Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Nas religiões de matriz africana o culto as árvores sagradas é de fundamental importância. São as grandes árvores que servirão de morada e local especial para o culto de diversas divindades como Iroko, Iyá Mi Eleye, Egun, Opaoká, Gunuko, Idanko, Azanado, Oloroke e Ktempo. Essas árvores podem ser identificadas pela presença de grandes ojás, que podem ser brancos ou coloridos, dependendo da divindade a qual estão ligadas.

Quanto mais antigas forem, maior será considerado seu axé e sua força. Elas desempenham um papel muito importante no cotidiano das casas de Candomblé. São feitas súplicas, rezas e aos seus pés são depositados diversas oferendas, podendo inclusive receber sacrifícios de animais. É habito comum em diversas casas que todo o resto do banquete destinado a Omolú, na festa do Olubajé, seja depositado nos pés de Iroko ou outra árvore sagrada do terreiro. Outro hábito interessante é que toda louça ou quartinha que se quebra vá para os pés de Iroko, como se de alguma forma o mal que poderia afingir um membro da casa tivesse sido transferido ao objeto e fosse apaziguado pela força de Iroko. Os antigos diziam que são as raízes e o galhos de Iroko que seguram a casa de santo e qualquer tipo de demanda direcionada para o terreiro.

 

Ceiba pentandra- Copa- Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Na Tradição Fon, seguida pelos Jeje, as árvores são chamadas de atín. Cada vodun pode ser cultuado aos pés de sua árvore votiva. Alguns antigos diziam que quando o vodun se aproxima o seu atin-sá (galho da sua árvore sagrada) balança, pois o “vento sagrado” está tomando conta de sua vodunsi.

 

Os povos de língua Bantu, conhecidos como Nação Angola, cultuam um nkisi muito confundido com o orixá Iroko dos Yorubás e com o vodun  Loko dos Jeje. Seu nome é Ktembo/Ndenbwa, ou ainda, Tempo. Kitembo também é cuidado aos pés de uma grande árvore, que pode ser a gameleira branca, a cajazeira ou o jenipapo. Ele pode ser identificado por uma bandeira branca de morim, pendurada em uma grande haste de bambu que fica enterrada próxima a árvore. Para Ele cantamos: “Kitembo mavila, Kasanje eazile!”

Na Nação Efon se canta até hoje: Oloke inmole sinse Oloke inmole sehin ose/ Asé b’ose Ekiti Ase b’ose Ekiti (Oloke orixá adorado na árvore Ose (Baobá), Axé que cultuamos e adoramos ao pé da árvore Ose, em Ekiti. Essa cantiga faz alusão ao orixá Oloke (Oloroke) que assim como Iroko tem uma árvore como seu símbolo, no caso, o baobá.

 

 

Espíritos das árvores- Foto retirada da internet

O povo Iorubá denomina as grandes árvores por Igi. Segundo algumas lendas contadas nas casas de Tradição Ketu todas as ávores estão ligadas a Oxalá e a diversos espíritos que as habitam, conhecidos por Iwin. É interessante ressaltar que dentro do folclore iorubano os iwin são espíritos da floresta e que podem assumir um aspecto não muito gentil, sendo bastante temidos. Nesse caso, também existiriam os òrò igi, que seriam o próprio espírito das árvores.

 

Dentre as árvores mais importantes podemos citar algumas:

 

Igí Okinkan/ Ìyeyè (Spondias lutea)- Cajazeira/ Cajá-mirim

 

Igí Òpè (Elaeis guineensis)- Dendezeiro

 

Igí Àràbà/ Igí Olorun/Gédé Hunsu (Ceiba pentandra)- Sumaúma

 

Igí Àrìdan (Tetrapleura tetraptera)- Aridan

 

Igí Osè/ Akapassa’tin (Adansonia digitata)- Baobá

 

Baobá- Foto da internet

O plantio dessas árvores, algumas vezes, pode ser um ato ritualístico, onde diversas evocações aos ancestrais e divindades são recitadas. A forma com que cada casa realiza, quando realiza, esses rituais é muito particular e pode seguir tradições já pré-estabelecidas pelo axé ao qual se descende ou ainda a intuição do Babalorisá/Iyalorisá.

 

 

Adansonia sp. Baobá- Foto retirada da internet

 

SUSTENTABILIDADE DO CULTO ÀS GRANDES ÁRVORES

 

Atualmente observamos um aumento desenfreado do número de casas de Candomblé. Segundo relatos de antigos, não era comum que todos os iniciados de um barco ou de uma casa ao completarem sua iniciação, após a obrigação de sete anos (Odun Ejé), abrissem outro barracão. A maioria não possuía o cargo de Iyálorisá/Babalorisá e permanecia em sua roça, ocupando postos como egbomi, Iyá kekere, Iyá Efun, entre outros. Às vezes, era comum que no caso de iniciarem alguém o fizessem na própria casa em que foram iniciados. Nas casas de Jeje, de Tradição Mahi era comum se dizer: Casa de Jeje têm várias mães. Isso porque poderiam existir diversos barcos de vodunsis diferentes no mesmo espaço religioso.

 

Podemos concluir que essa prática era de extrema importância para a manutenção da Tradição e dos costumes compartilhados pelos membros dessas comunidades (egbé), pois permitia a constante troca de costumes e saberes nesses grupos. Pode-se afirmar que isso tornava a religião do Candomblé extremamente sustentável, sob o ponto de vista de utilização dos espaços e recursos naturais, como cachoeiras e matas, fundamentais para o culto das divindades africanas. Como existiam poucas casas, a produção de resíduos dispensados no meio ambiente pelas mesmas era bem menor.

Com o processo da urbanização e afastamento das casas matriz o Candomblé vai perdendo bastante de sua identidade. Os espaços naturais (Ilé Igbó) nos terreiros vão ficando cada vez menores, muitas vezes até inexistentes. As grandes árvores, que antes eram objeto de culto, deixam de estarem presentes e seus fundamentos vão sendo esquecidos. Podemos citar o exemplo de inúmeras casas Jeje Mahi do Rio de Janeiro, que ainda apresentam alguns voduns como Legba, Gun, Ague e Bessen em espaços externos do terreiro, segundo a linguagem do povo de santo, “no tempo”. Esses voduns apresentam seus assentamentos aparentes, em áreas em que o solo foi impermeabilizado (cimentado), podendo ser facilmente identificados. Eles ainda são chamados de atin, o que na verdade é uma lembrança das grandes árvores que serviriam de morada para os mesmos, onde frequentemente eram enterrados sob suas raízes.

Até que ponto o processo de modernização do Candomblé permitirá que essa religião mantenha suas raízes e continue sendo uma forma sustentável de manutenção do legado deixado por nossos ancestrais negros, que tanto lutaram e sofreram para preservar essa antiga Tradição?

TEXTO ESCRITO POR JONATAS GUNFAREMIM

O vídeo abaixo faz parte do Acervo Cultne, que  registrou o ritual de plantio do Baobá no Ilê Axé Oya Bagan, sob o comando da Iyalorixá mãe Baiana e o Babalawo Rasaki Salami, da cidade de Abeokuta na Nigéria.


3 Responses to IGI, AS GRANDES ÁRVORES SAGRADAS

  1. marcia cecilia de farias

    GOSTARIA DE SER INFORMADA SE POSSÍVEL ME SER ENVIADA UMA MUDA DE IROKO E O PREÇO.DESDE JÁ MEUS AGRADECIMENTOS.

  2. marcia cecilia de farias

    COMO PODE SER ENVIADO UMA MUDA DE IROKO E PREÇO

    • Gunfaremim

      Por favor, entre em contato com o produtor através dos contatos deixados no post “MUDAS DE PLANTAS SAGRADAS”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>