Milho – àgbàdo (Zea mays)

Posted by Gunfaremim on 14 de agosto de 2010
Espiga de milho

Vamos falar sobre o àgbàdo? Nosso velho e conhecido milho (Zea mays). Digo velho porque sua origem data mais de 7 mil anos, provavelmente na América Central, mais especificamente nos planaltos mexicanos. Esse vegetal era amplamente utilizado pelos povos Astecas, Maias e Incas não apenas como fonte de alimento mas também em diversos rituais religiosos.

Entre as divindades Maias não era muito comum as mesmas possuírem feições amáveis, entretanto uma se destacava das demais. Era Yuin Kax, de aparência jovem e conhecido como “Senhor dos Bosques”. Yuin Kax era cultuado como divindade da abundância e da prosperidade, entretanto também era associado a morte. Segundo o pensamento Maya, o grão de milho deveria ser enterrado como um cadáver, para que, após a morte, pudesse renascer.
Nossos índios Guarani também tinham uma crença bem parecida com relação ao milho, podendo ser entendida a partir do mito de Avaty, o caçador, que eu extraí de um texto de Noga Lubicz: “Conta uma lenda guarani que num tempo muito longínquo, cada família procurava na agricultura e na caça, os meios para subsistir. Mas dois caçadores sempre andavam juntos e o que eles conseguiam, dividiam para eles e para as outras famílias. Mas houve um tempo que todos os alimentos ficaram escassos. Os dois amigos conversavam sobre isso quando aproximou-se deles um homem dizendo ser o enviado de Nhandeyara (o grande espírito), e que ele haveria de enviar a planta que acabaria com a fome. Mas para isso, cada um dos dois amigos teria que lutar com este homem para ver qual era o mais forte. E o mais fraco teria que sacrificar-se e ser enterrado junto à cabana. Quem perdeu foi um dos amigos chamado Avaty, que foi enterrado por seu amigo, apesar do grande desgosto, como o combinado. Em um dos primeiros dias de primavera a aldeia foi surpreendida com uma bonita planta de muitas folhas verdes e espigas douradas. Viu, então, o caçador, a promessa cumprida e compreendeu a sabedoria de Nhandeyara que foi necessário sacrificar um para a salvação de vários. Desde então os guaranis chamam esta planta de avaty, em homenagem ao índio enterrado.”

Pé de milho

Dentro do Candomblé, embora não seja de origem africana, o milho apresenta uma posição de destaque. Podemos dizer que uma casa de candomblé não funciona se não tiver milho no ilé ìdáná (cozinha). Isso não é um exagero quando lembramos que alguns dos principais adimús (oferendas) são a base de milho. A exemplo, podemos citar o doburú (pipoca), o ebô (canjica), o axoxô, o eko e o akasá. Acredita em mim agora?

Pois é, existem dois tipos de àgbàdo: o funfun (branco) e o pupa (vermelho). Com cada um deles podemos preparar diversas iguarias, que são apreciadas pelos mais diferentes orixás: Omulú, Ogún, Odé, Ossayin, Ewá, e por aí vai… Ndandalunda, inkicie ligada ao cultivo das raízes e ao ciclo lunar, cultuada nas casas de ritual Angola e muito confundida com Osun, também aprecia o àgbàdo.


Com relação ao cabelo de milho, ele costuma ser oferecido para Ode, junto com a espiga, em trabalhos para obter prosperidade e fartura. Já vi pessoas que o ofereciam para Oyá, com o mesmo objetivo. Outra forma interessante que eu já tive a oportunidade de observar é a utilização de bonecos “voodoo”, feitos com a palha e os cabelos de milho. Nesse caso o intuito era de aproximar duas pessoas. Por fim, com a palha do milho é feito um cigarro que é muito apreciado por uma entidade pertencente à Umbanda e o Catimbó, denominada Zé Pelintra. O cabelo de milho também é utilizado como um fitofármaco que auxilia nas doenças dos rins, tendo efeito diurético e ajudando a baixar a pressão arterial
Durante a Sasányìn podemos cantar esse korín ewé:

Kórè l’ewa àgbàdo
Lélè kó
Lélè kó
Rà d’o

Colha o milho que é lindo
Retire do chão
Retire do chão
Todos irão comprar de você



Cabelo do milho

Vamos aproveitar o momento e recitar um ofózinho para folha do milho dar sorte? Ofo é o termo genérico empregado pelos iorubás para designar encantamento. Pode ser definido como “a palavra falada que se acredita possuidora de força mágica ou capaz de produzir efeitos mágicos quando recitada ou cantada sobre objetos mágicos ou na ausência destes.” O ofo pode ser pronunciado em voz alta, sussurrado ou dito de forma que só você entenda.

ONÍIRE NI T’AGBÀDO.
ÀGBÀDO RÌN HÓHÒ D’ÓKO.
Ó KÓ RE BÒ WÁ LÉ.
KÍNI ÀGBÀDO Á MÚ BÒ? IGBA OMO.
KÍNI ÀGBÀDO Á MÚ BÒ? IGBA ASO.

O milho tem boa sorte
O milho vai nú para o campo.
Ele pega a boa sorte e volta para casa com ela
O que o milho traz para casa? Duzentas crianças.
O que o milho traz para casa? Duzentas roupas.



Uma variação:

Kini àgbàdo á mú bó? Igba omo.
Kini àgbàdo á mú bó? Igba asó.
Orí’re ni ti àgbàdo.
Àgbàdo rin hòhò l’óko.
O kó ‘re bó wá ‘lé.
Orí’re ni ti àgbàdo

O que o milho está trazendo de volta? Duzentas crianças.
O que o milho está trazendo de volta? Duzentas roupas.
O milho traz boa sorte.
O milho vai para o campo.
E retorna para casa com boa sorte.
O milho traz boa sorte





LEIA TAMBÉM:”Os grãos dourados do espírito”, por Noga Lubicz
www.rosanevolpatto.trd.br/lendamilho.htm

One Response to Milho – àgbàdo (Zea mays)

  1. Gabriel

    Que coisa mais linda que você faz nesse site, meu coração transborda de emoção ao ler seus textos, desejo do fundo do meu coração que baba mi odé lhe abençoe grandemente.
    Gostaria de fazer um pedido, fale sobre o feijão fradinho? Um pequeno ofó, um orin, não acho nada sobre.

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