DICA DE LEITURA: MÃE AFRICA (CELSO SISTO)

Posted by Gunfaremim on 18 de agosto de 2015

O CORAÇÃO DO BAOBÁ

 

 

Ilustração Celso Sisto

Os baobás povoam a África há muito tempo, e são como muitos corações abraçados: fortes e inabaláveis. Mas também são retorcidos, como as voltas de uma história. E com raízes profundas e algumas cicatrizes..

A lebre, depois de um dia cheio de aventuras para obter comida, vinha voltando para casa de mãos abanando e estômago vazio. Certamente sua esposa reclamaria e falaria durante horas em suas já compridas orelhas. Aliás, vai ver que era bem por isso que suas orelhas eram tão grandes: para suportar melhor as reclamações dos outros! A lebre vinha de cabeça baixa, pois era tarde e o peso de tudo a incomodava.

Quando passou por baixo do Baobá, de um que sempre tinha de cruzar, para poder entrar em, sua toca, ouviu as folhas da grande árvore cantando:

” Caluê, caluê dendê.

Sem boca, cantamos pra você.

Caluê, caluê dendê.

Sem voz, falamos com você.

Caluê caluê dendê,

coração sem porta

abre e ninguém vê..”

A lebre jamais tinha reparado na voz daquele Baobá. Ficou com uma vontade enorme de parar e ouvir, mas assim que se encostou ao tronco da árvore, caiu num sono profundo.

 

Árvore Baobá, embondeiros, imbondeiros ou calabaceiras

Acordou assustada, sobressaltada, ainda mais atrasada do que nunca.. Mas parecia que o tempo tinha parado, pois as folhas da majestosa árvore ainda repetiam a mesma cantoria:

” Caluê, caluê dendê.

Sem boca, cantamos pra você.

Caluê, caluê dendê.

Sem voz, falamos com você.

Caluê caluê dendê,

coração sem porta

abre e ninguém vê..”

Então a lebre teve uma idéia. E era sua última oportunidade para não chegar de mãos vazias a sua casa:

-Sabe, seu Baobá? Sua sombra se espalha por um longo terreno, mas bem que seus frutos poderiam fazer o mesmo, não é?

Adansonia digitata (Igi Ose/ Baobá)

Parece que o Baobá aceitou a provocação da lebre, porque na mesma hora bateu uma rajada de vento e os frutos tomabaram aos milhares. A lebre ria de orelha a orelha, enquanto catava o que era possível..

Mas isso ainda não era tudo! Como se não bastasse, o Baobá também ofereceu à lebre o seu coração, cantando:

” Caluê, caluê dendê.

Sem boca, cantamos pra você.

Caluê, caluê dendê.

Sem voz, falamos com você.

Caluê caluê dendê,

coração aberto

abre abre hoje só pra você..”

E como num passe de mágica, o baobá! “shiiiiiishiiiiiiishiiiii!” foi abrindo devagarzinho o seu enorme tronco, deixando a lebre ver tudo o que havia por dentro. Um imenso tesouro, de que ninguém  suspeitava a existência:pedras preciosas, como o brilho da amizade, tecidos bordados em fios de ouro, como alinha que eleva um coração a outro, colares das mais reluzentes pérolas, polidas como o amor..

 

Fruto do baobá, conhecido como "pão de macaco" e muito apreciado na culinária africana

Os olhos da lebre se incendiaram diante de tamanha riqueza. Até faltavam-lhe olhos para admirar toda aquela preciosidade. Parecia que o Baobá dizia em seu ouvido:

Lebre… lebre… leve o que for possível carregar com você… é presente do meu coração!

Em meio ao maravilhamento a lebre se foi, carregando muitos presentes para a sua esposa, o que certamente a deixaria menos raivosa pelo atraso e pela ausência de caça, e … provalvelmente, mais vaidosa, pelo brilho que os enfeites iriam irradiar, de agora em diante.

Na mesma hora a esposa da lebre saiu enfeitada da cabeça aos pés, para exibir-se para a vizinhança. Em seu passeio, encontrou logo a hiena, que encheu os olhos de cobiça… A notícia já se tinha espalhado.

 

Fruto do baobá

-E então, comadre lebre, onde foi mesmo que seu marido arranjou todo esse tesouro?

-No velho Baobá, querida…. -foi logo dizendo a esposa da lebre. E aumentou a história, para parecer também mais importante aos olhos da vizinha. E quanto mais a lebre descrevia a aventura de seu marido, mais a hiena faiscava de inveja!

-Eu também irei até esse Baobá… Pode esperar! Quero só ver o que ele tem para me dar!

Dito e feito. Entre um pôr-do-sol e um amanhecer, lá estava a hiena para tentar a sorte com o Baobá. E tudo se passou exatamente como a lebre havia contado. O Baobá cantou, alargou sua sombra, espalhou seus frutos, abriu seu coração e ofereceu seus tesouros à hiena.

Mas a hiena era mais gananciosa do que o Baobá pensava. Foi pegando tudo e caiu na besteira de levar consigo um enorme embornal, para enchê-lo também de jóias. E ainda fez pouco caso quando pensou ter ouvido o Baobá dizer:

-Leve hiena… leve o que for possível carregar com você… é presente do meu coração!

Com seu riso costumeiro, a hiena dizia para si mesma:

-Eu quero isso… e mais isso… eu quero tudo, tudo só para mim… e se eu não puder levar tudo hoje, pode estar certo de que voltareis em breve para dizimar esse Baobá.

De repente, parece que o Baobá pressentiu o perigo! Rapidamente fechou seu tronco e seu coração, e a hiena ficou lá, presa para sempre. E morta!

É por isso que o Baobá não abre mais seu imenso tronco; nem para os homens, nem para os animais. Ninguém sabe dos intermináveis tesouros que há em cada uma dessas enormes árvores.

Mas de uma coisa todo mundo ficou sabendo: desde esse dia, tudo ficou mais difícil para as hienas. Elas se viram, de repente, obrigadas a vagar pelo mundo à procura de carne. Nada do que é vivo serve, pois elas só comem carne morta.

E os baobás continuam desafiando o tempo e os homens. E os homens podem ainda escolher, se querem ser como os baobás ou como as hienas…

” Caluê, caluê dendê.

Sem boca, cantamos pra você.

Caluê, caluê dendê.

Sem voz, falamos com você.

Caluê caluê dendê,

coração sem porta

abre e ninguém vê..”

MÃE ÁFRICA: MITOS, LENDAS, FÁBULAS E CONTOS.

Autor: Celso Sisto

Editora: Paulus, 2007,

144 páginas.

 

Ilustração Celso Sisto

 

 

 

One Response to DICA DE LEITURA: MÃE AFRICA (CELSO SISTO)

  1. JORGE DINIZ DOS ANJOS

    Fiquei fascinado pela essa grande arvore e também pela lenda descrita.

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