Ásèsé – Origem das origens (II)

Posted by Gunfaremim on 20 de junho de 2011

Iroko, a ancestralidade aqui faz morada (Ficus sp.)

Quando alguém é iniciado no culto aos orixás, o elo que o liga ao seu ancestral mítico (orixá) é estreitado. A memória ancestral, muitas vezes esquecida, é reavivada. O caminho (Odú) pelo qual Orí escolheu vir ao Ayé é conhecido. O indivíduo passa a ser um Omo orixá (filho de orixá), seja iyawo, ogan ou ekejí. Não está mais sozinho, faz parte de uma comunidade (Egbé), assumindo responsabilidades para com o seu orixá e também aos demais orixás e filhos da casa.

A cada ano, e a cada obrigação paga, sua relação com o seu orixá olorí (Guardião) vai ficando mais forte. Seu axé irá aumentar, seu conhecimento e suas responsabilidades dentro da comunidade também. Ao final de seu sétimo ano de iniciação (Odun Ejè), poderá se tornar um Egbomi (irmão mais velho), podendo então receber um Oye (cargo), caso seu Odú assim determine. Nessa ocasião também, caso ainda não possua, poderá possuir um igbá orí (assentamento do Orí individual). É costume se dizer que só a partir desse momento o seu processo de iniciação está concluído, daí muitas casas só montarem o igbá orí nesse momento. Nos anos que se seguem são realizadas mais duas importantes obrigações, de 14 e 21 anos, onde o iniciado reafirma os seus votos para com o seu orixá e também com a comunidade ao qual está inserido.

Observamos que durante a vida religiosa, o iniciado é levado por meio de diversos rituais, a reiterar os laços que o ligam não só ao seu orixá, mas também a comunidade que o acolheu. Celebra-se a vida que se individualizou e também a vida que se integrou aos demais. Quando um iniciado morre, esses elos têm de ser desfeitos. O indivíduo passa de vivo (ara ayé) para morto (ara orún).

Àràbà/ Igi Olorún/ Gédé Hunsu (Ceiba pentandra)

O conjunto de rituais que são realizados com a finalidade de restituir o equilíbrio entre os ara aye e os ara orun é conhecido nas casas de tradição Ioruba pela denominação de Ásèsé (Àjèjè). Em outras nações esse ritual costuma receber outros nomes, como Sihun/Zerim (Jeje) e Mukundu/Ntambi (Bantu). É interessante frizar que os termos Sihun e Zerim, na língua fon, se referem também a instrumentos utilizados em substituição aos atabaques nos rituais funerários.

Embora muitos desconheçam, o Ásèsé é uma cerimônia obrigatória para todo aquele que se iniciou, independente do cargo que ocupava (iyawo, ogan, ekeji ou sacerdote). No processo de iniciação se criam e fortalecem os vínculos entre o iniciado, o orixá e a comunidade, quando ocorre a morte, esses laços PRECISAM ser desfeitos. Isso é importante tanto para aquele que vai embora do mundo material como para aqueles que permaneceram neste mundo.

De forma geral podemos dizer que no Ásèsé o caminho segue o inverso do realizado na iniciação. Para melhor compreender, devemos nos lembrar dos conceitos de Emí, Orí, Orixá e Egum. Quando morremos nosso Emí não é perdido, ele retorna para o seu Criador, o sopro vital deixa o corpo material, que se torna inerte. Já nosso Orí, carregando o nosso “destino” se desintegra, pois é único. Ninguém poderá herdar o Orí de outro, motivo pelo qual o igbá orí deverá ser desfeito. O orixá para o qual fomos iniciados, irá retornar para a Natureza, da qual é uma pequena parte. Caso seja de sua vontade, poderá continuar sendo adorado e retornar mais tarde, através de um novo nascimento. Nesses casos poderá até trazer um nome que o identifique, como Babá (Iyá) Túndé (o Pai/Mãe voltou). Esse orukó (nome) pode se estendido não apenas para o orixá que retorna, mas também para o filho desse orixá. Esse princípio, que se assemelha em parte com o conceito de reencarnação, é denominado pelos Iorubá como Àtúnwa (aquele que retorna). Entretanto, embora sejam conceitos semelhantes, diferem em diversos aspectos. Não podemos esquecer que a reencarnação pressupõe o retorno ao mundo de uma alma/espírito indivisível, enquanto na visão africana esse princípio gerador da vida é bem mais complexo.

Quando a vida deixa o corpo (ara) nosso egum também se desprende do mesmo. Esse Egúm carregará consigo, a memória do vivo, de todas as suas ações, devendo ser encaminhado de volta para o orún. Sua memória será sempre lembrada e exaltada pelos vivos, porém ele não pode continuar mais entre nós. Cabe ressaltar que existem nove oruns, dependendo de como se portou esse Egum no Aye ele será encaminhado para um dos nove orúns, podendo retornar ao aye novamente ou não. Segundo a tradição africana, um orixá pode retornar através de um novo nascimento e não necessariamente estar ligado ao retorno de um determinado Egum, ao qual ele antes estava vinculado..Para o africano, o retorno de um Egúm ao mundo dos vivos também está relacionado com o merecimento do mesmo, perante Olorún. Nossas atitudes e ações, sempre serão importantes. Embora não exista exatamente um

Ceiba pentandra (Jardim Botânico do Rio de Janeiro)

conceito de inferno Cristão, existem espaços no orun que abrigarão o Egum que não soube conduzir os seus passos, a exemplo do Òrún Àpàádi e o Òrun Burúkú. Da mesma forma existem espaços de paz e alegria como o Òrun Reree o Òrun Àlàáfíà.

Podemos concluir daí que, o Ásèsé não é um privilégio concedido a determinado iniciado, mas sim uma etapa importante de todo aquele que passou pelo processo de iniciação, seja sacerdote ou não. A realização correta desse ritual representa a possibilidade de um recomeço, de voltar a origem. Só após retornarmos a origem, perdendo a nossa existência individualizada no aye, poderemos estar preparados para recomeçarmos o ciclo da vida. Antes da vida recomeçar, cada coisa deve ser reposta em seu devido lugar. Isso me faz lembrar um itan sobre Ikú, a morte. “Quando Olòrún incumbiu Obatalá para criar o homem decidiu que o principal material a ser utilizado seria Amòn, a lama, mistura de terra e água. O Senhor do Pano Branco solicitou vários orixás para lhe trazerem Amòn. Entretanto cada vez que os mesmos se abaixavam e tentavam retirar Amòn, a terra chorava, pois estavam retirando um pedaço dela. Todos eles falharam na missão, sendo Ikú o único a retirar Amòn e entregar a Obatalá. Como recompensa, o Rei do Alá delegou a Ikú a tarefa de devolver à terra o corpo (ara) de cada homem e mulher assim que o sopro vital (Emí) retorna-se a Olòrún.” Por isso, toda vez que Emí é perdido e temos a aproximação de Ikú nosso orixá vai embora, retornando ao seu elemento fundamental. Esse itan justifica ainda a necessidade, segundo a crença Ioruba, de sermos enterrados. Amòn deve retornar para sua origem, para que possa novamente ser utilizada.. Ásèsé é exatamente isso, tornar possível uma volta à origem, sem Ásèsé não existe começo, pois o ciclo ainda não se completou..

Embora seja uma cerimônia que se estende a todo iniciado, a duração e a forma como ela irá ser conduzida difere, de acordo com o grau hierárquico, tempo de iniciação e quantidade de elos a serem desfeitos. Quanto maior seu status dentro da comunidade quando vivo, mais complexo deverá ser o ritual funerário. Infelizmente é triste observar a grande quantidade de iniciados que sequer tem a chance de terem a finalização de sua iniciação. Os motivos são diversos: desconhecimento da importância desse rito, falta de interesse em arcar com os custos (que costumam ser altos) e até mesmo por achar que o iniciado não era merecedor (??).

Folha da fortuna- A vida sempre se renova..

Com relação aos custos excessivos do ritual, isso se deve, a meu ver, a uma prática puramente mercantilista e que está cada vez mais freqüente entre alguns membros das religiões de matriz africana. Hoje em dia, só tem direito a um Ásèsé aquele que está disposto, e pode, pagar. O conhecimento é vendido, ou é utilizado como moeda de troca. A lei do merecimento e tempo de iniciação pouco importa. Uma das conseqüências disso é que, a visão deixada pelos nossos ancestrais, de comunidade, é cada vez mais suplantada pelos desejos individuais. A Tradição não dita mais as regras, cada qual segue suas próprias regras, de acordo com seus interesses momentâneos. Dessa forma a essência vai se perdendo, a memória vai ficando esquecida. Ora, sem memória, não existiria o Candomblé, uma vez que ele está enraizado no conceito de ancestralidade. Quando enfraquecemos a Tradição, estamos enfraquecendo a memória de nossos ancestrais, fazendo com que nossas origens sejam esquecidas. O Ásèsé nos ensina, se não podermos retornar a nossas origens, como poderemos sustentar nossa religião?

 

Dedico este texto a memória de meu Pai: José Flávio Pessoa de Barros (Pai Flávio).

Babá mimá sùn o –Meu pai, não durma, vigie todos os seus filhos!

 

Ásèsé, mo juba ; Ásèsé, Ásèsé o!;

Ásèsé o ku Agbà o!; Ásèsé , Ásèsé o!;

Ásèsé , érù ku Àgbà o!; Ásèsé , Ásèsé o!

 

Axexé eu lhe apresento meus humildes respeitos!;

Axexé eu venero e saúdo os mais antigos,

Axexé o escravo saúda os mais antigos.

 

IGÌ ÒPÈ (Ewé Marìwo )- Elaeis guineensis

Ò dúró ó Ìkú àiyé

Ò dúró Ìkú àiyé

Ìkú l’opa a àlà bàbá

Ìkú kò m’a kékeré

Ò dúró Ìkú àiyé

 

LEITURA INDICADA:

*Faraimará – o caçador traz alegria. Organização: Raul Lody e Cléo Martins.  Editora Pallas. ISBN: 85-347-0201-2

*Os Nago e a Morte. Autor: Juana Elbein dos Santos. Editora Vozes. ISBN-13: 9788532609236

*Àsèsé, o Reinício da vida. Altair Bento de Oliveira. togun@altair.togun.nom.br

2 Responses to Ásèsé – Origem das origens (II)

  1. tata poko roxibewi

    parabéns muito bom excelente texto tudo tem um começo meio e fim e novamente começo meio fim

    • Gunfaremim

      Obrigado meu velho, estamos juntos nessa luta por nossas tradições.

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