IYÁ OMÍ IMÓLÈ

Iyá Omi Imólè n’ile (ní ewe) awo

Iyá Omi Imólè aseke b’ewe

Iyá Omi Imólè n’ile (ní ewe) awo

Iyá Omi Imólè aseke omo

Oju odo aseke oju orò

Osibata oro oloke omi

Iyá Omi Imólè aseke omo

 

“A mãe dos espíritos das águas tem folhas para o culto,

A mãe dos espíritos das águas preparou uma grossa sopa de folhas

A mãe dos espíritos das águas tem folhas para o culto,

A mãe dos espíritos das águas preparou uma grossa sopa para os seus filhos

Dentro d‘água preparou a sopa com ojú odo (aguapé), ojú oro (alface-d’água) e osibatá (flor-de-lótus),

Senhora das águas altas (cachoeiras), Senhora das águas da vida preparou uma grossa sopa de folhas para os seus filhos”

 

 

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É A RAIZ QUE SEGURA O TRONCO… IYÁ NITINHA DE OXUM

 

Mãe Nitinha de Oxum

Areonithe da Conceição Chagas, Ìyá Nitinha de Òṣun, nasceu no dia 12 de setembro de 1928, em Santo amaro de Ipitanga, na Bahia.

Filha de Izidora com um espanhol foi criada por Maria da Natividade Pereira, mais conhecida como “Cotinha”, Ògúnjobì, filha de santo da Casa Branca, mais precisamente do terceiro barco de Ìyá Massi, Oìnfunkẹ̀.

Aos quatro anos de idade, Ìyá Nitinha foi iniciada para Òṣun, por Ìyá Massi. Aos quatorze anos casou-se com um filho de Ògún do Jeje de Cachoeira – BA, conhecido como “Seu Benzinho”. Ele era Oluwò, ou seja, jogava os búzios para a Casa Branca, além de outras casas importantes. Desta União nasceram dois filhos, ambos Ogà da Casa Branca: Areelson (Ogà Léo) e Arehigino (Ogà Gininho), confirmados por Ìyá Massi.

Durante esta união Ìyá Nitinha galgou conhecimento sobre a nação Jeje, pois Seu Benzinho era um grande e respeitado Olùwò.
Tempos depois, ela passou a trabalhar nas profissões nas quais era formada, a saber, parteira e professora primária, na Comunidade do Portão – BA.

Mais tarde, um terceiro filho, Antônio Luís (Ogà Julinho).
No Ilê Aṣè Ìyá Nassô Oká – Casa Branca, recebeu os postos de Iyatebeṣé, Ojúodé e Ìyákekeré. Também recebeu o posto de Ìyágà no Ilê Agboulá no bairro das Amoreiras em Itaparica – BA, sendo o maior posto dado a uma mulher no culto de Bàbá Egùn.

Fundou sua primeira casa de Candomblé em 1960, no Município de Santo Amaro do Ipitanga em Pitangueiras – BA.

E assim Ìyá Nitinha não parou e em 23 de abril de 1972 fundou a Sociedade Nossa Senhora das Candeias (Aṣè Ìyá Nassô Oká Ilê Òṣun – Sociedade Nossa Senhora das Candeias) na Cidade de Nova Iguaçu – RJ, mais precisamente no bairro de Miguel Couto, na Baixada Fluminense.

Neste foram iniciados mais de 500 filhos de santo, Ogà e Ekèje.
Sempre correta em suas atitudes e dedicada aos seus trabalhos como Ìyáloriṣá, Ìyá Nitinha era um exemplo de respeito e cumplicidade para com os Òrìṣà, aos quais dedicou toda a sua vida.

 

Iyá Nitinha de Oxum, Iyalorixá da Casa Nossa Senhora das Candeias

Por mais que os galhos cresçam, o tronco sempre será maior, e quem sustenta o tronco é a raiz”.

Mestre Ataliba

 

 

 

 

Mãe Nitinha, da Bahia, é condecorada pelo presidente Lula com a Ordem do Rio Branco (Brasília, DF, Palácio do Itamaraty, 02/05/2007) Foto: Ricardo Stuckert/PR

Conheceu o Presidente Lula no Rio de Janeiro há dez anos e depois, em 2005, foi convidada pelo próprio Presidente para fazer parte da Comitiva Religiosa que participaria do funeral do Papa João Paulo II. Ao ser perguntada sobre o atraso que a fez perder o voo, Ìyá dizia: “O santo mandou ficar”.

Em 2007 foi condecorada com a Comenda da Ordem do Rio Branco, também pelo Presidente Lula em Brasília, maior condecoração que um civil pode receber no Brasil.

Ìyá Nitinha era animada, exuberante e graciosa, mas também enérgica quando preciso. Conhecida nacional e internacionalmente, tinha filhos espalhados pelo Brasil, Argentina, França, Portugal, Itália, EUA dentre outros países. Conquistou sua fama por conta de seus conhecimentos e sapiência no Candomblé em suas diferentes Nações e também pela seriedade e leveza com que conduzia a religião e a Casa.

Ìyá Nitinha não era apenas um exemplo de Ìyáloriṣá, tinha poder nas decisões e a magia no olhar, foi incontestavelmente uma das maiores lideranças religiosas na Bahia e no Rio de Janeiro.

 

Dia 04 de fevereiro é uma data inesquecível para o Candomblé do Brasil e principalmente para os filhos e descendentes da Casa Branca do Engenho Velho. Veio a falecer no Hospital Evangélico, em Brotas, onde estava internada há 12 dias, vítima de insuficiência respiratória. Foi sepultada dia 05 de fevereiro 2008, às 14h, no Cemitério Jardim da Saudade, também em Salvador – Bahia.

No terreiro da Casa Branca iniciaram-se no dia seguinte os rituais de Ajèjè, que tem duração de vários dias. O Ajèjè em Miguel Couto teve início em 12 de março de 2008, sob a direção do Bàbálòrìṣà Air José, do Terreiro Pilão de Prata e Pai Valdemar Ogunssy do Ilê Axé Alarabedê.

Uma Ìyáloriṣá importante para a cultura brasileira e mais ainda para a religião do Candomblé.  Em 2009 teve a sucessão de Iya Nitinha pela Iya Débora de Oxum no Asé Iyá Nasso Oká Ilè Osum -  Sociedade Nossa Senhora das Candeias em Miguel Couto RJ.

Fontes: http://www.maenitinha.com.br/ (com alterações no yorubá).

https://www.facebook.com/candomblesemsegredos

 

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Mãe Stella de Oxóssi- “O que as folhas cantam (para quem canta folha)”

 

O livro

 

Fonte: http://mundoafro.atarde.uol.com.br/wp-content/uploads/2014/10/Mae-Stella-6-editada-300x261.jpg

O que as Folhas Cantam (para quem canta folha): O preconceito, sobre qualquer tema só pode ser minimizado através do conhecimento. É com este principal objetivo que Mãe Stella de Oxossi lança este livro revelando o saber filosófico e religioso do povo de candomblé.

A obra revela a sabedoria contida em mais de sessenta cânticos da língua yorubá, através da tradução para o português. O livro, que tem 272 páginas, é de fácil compreensão, pois além de conter ilustrações de todas as folhas, tem para cada uma delas o nome científico, popular e yorubá.

Osanyin é o orixá das plantas. As folhas, assim como toda natureza, têm para o candomblé uma importância fundamental, são fonte de ensinamento e de cura. Mãe Stella conta, através de cantos e mitos, sobre a beleza e a força do culto às folhas e o cotidiano do terreiro do Ilê Afonjá.

Fonte: http://g1.globo.com/bahia/noticia/2014/09/mae-stella-de-oxossi-lanca-livro-e-reinaugura-biblioteca-em-salvador.html

 

 

 

 

Iyá Stella de Oxossi/ Fonte: Fonte da foto: http://mundoafro.atarde.uol.com.br/wp-content/uploads/2014/10/Mae-Stella-6-editada-300x261.jpg

“Os rituais do candomblé são sempre envoltos em mistérios, porém nada é mais misterioso do que a própria vida.  Os véus que encobrem os mistérios vão sendo retirados gradativamente a depender da necessidade e da evolução da humanidade.

O livro o que as folhas cantam (para quem canta folha) revela a filosofia religiosa do ritual Sàsàn Yìn, o qual visa acordar o poder das folhas para que elas sirvam como remédio para o corpo, alma e espírito. Ele é composto por mais de sessenta cânticos na língua yorubá com suas respectivas traduções, além de vários mitos referentes aos orísa e plantas. A classificação científica de cada planta serve para que o leitor possa fazer substituições necessárias (e responsável), a depender da região que ele more. Visando facilitar ainda mais a compreensão do livro, existem três anexos através dos quais se pode identificar a correspondência entre o nome científico das plantas, seu nome na língua yorubá e a forma como é popularmente conhecida no terreiro Ilé Àse Opo Afonjá/Bahia. O vocabulário inserido no final do livro ajuda a despertar o interesse no estudo da língua yorubá, principalmente para adeptos do candomblé. Sem compreender o significado do que se fala e se canta fica muito mais difícil o aperfeiçoamento do indivíduo.

A Íyálorísa Mãe Stella de Òsósi inova sempre para estimular as pessoas a se renovarem constantemente.”

 

Editora: Ossos do Oficio

Participações: Maria Stella de Azevedo (autor), Graziela Domini Peixeto (autor), Adriana de Castro (revisor), Alessandra Paola Caramori (supervisor), Rose Vermelho (projeto gráfico), Rita Honotorico (coordenador), Cesário Francisco das Virgens (revisor) e Angela Maria Botelho Fonseca (revisor)

Edição: 1

Altura: 0 cm

Largura: 0 cm

Ano: 2014

ISBN: 9788568431009

Nº de Páginas: 272

 

Imagem de Amostra do You Tube

 

 

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Ewe Àjé kòbàlé – Croton zambesicus

Está inserida na Família Botânica Euphorbiaceae e possui como sinonímia: syn. Croton amabilis Müell. Arg., Croton gratissimus Burch).

A espécie Croton zambesicus, conhecida em Iorubá como Ajekobale (ajeofole, ajeobale), é utilizada no Estado de Ekiti, Nigéria, no cuidado da saúde dentária e bucal. Ela também é utilizada associada a Cassia occidentalis (ewe ori esi) e Newbouldia leavis (akoko), fervidas para tratar doenças gastrointestinais e diarréia. As folhas de Croton zambesicus também são utilizadas tradicionalmente pela população do Benin, em forma de infusão, para tratar a hipertensão. Além disso, apresenta atividade anticoagulante, que associada com as propriedades vaso-relaxantes de alguns dos seus diterpenos pode revelar-se interessante para a prevenção de doenças cardiovasculares na medicina tradicional.

Muitas vezes ela costuma ser plantada  ao lado das casas, por causa da forte crença de que essa planta afastaria bruxaria e os maus espíritos. é antídoto contra a intoxicação alimentar e ataque espiritual.

Em alguns trabalhos de Ifá pode ser utilizada misturada com determinadas folhas e reduzidas a pó, que é esfregado em incisões na cabeça. Segundo alguns relatos, seriam 9 para o sexo masculino e 7 se o usuário for mulher. Esta mistura é considerada poderosa contra inimigos e qualquer forma de magia maligna. É interessante observar essa numerologia, uma vez que ela pode nos remeter a um conhecido itan, onde Ogun e Oyá travam uma batalha furiosa. Como resultado Ogun foi partido em sete (Meje) partes pela espada de Oyá, e Oyá foi dividida em nove (Mesan) partes pela espada de Ogun.

Ògún Mèje ou Mèjéjé é o senhor dos sete cantos (aldeias) de Ire (Ògún Mèjéjé lóòde Ire). Ìyá omo mésàn (Mãe dos Nove Filhos) ou Ìyá Mésàn Orun (Mãe dos Nove Oruns) que com o tempo passou a ser chamada Iyansan, Senhora dos Ventos e dos Raios, Deusa do Rio Niger.

Osameji diz o seguinte sobre esta folha de Ifa: “E ma r’ibi ba l’ara mi Agba eleye. Ko ma ni r’ibi ba l’ori Àjé kòbàlé”.. “Você não tem chance para pousar no meu corpo Anciã Proprietária do Pássaro. Você não tem chance para pousar no Àjé kòbàlé”.

Embora não seja uma planta amplamente utilizada nas casas de Candomblé é extremamente importante no culto de Ifá. Folha de proteção, que trás em seu nome o ofó. Que as Feiticeiras jamais consigam se empoleirar sobre nossas cabeças e que os inimigos não tenham força para nos fazer o mal. Axé!

TEXTO ESCRITO POR GUNFAREMIM

Ewe Àjé kòbàlé - Croton zambesicus

Ewe Àjé kòbàlé - Croton zambesicus

 

Ethnobotanical Survey of Plants Used in the Treatment of Haemorrhoids in South-Western Nigeria Mike O. Soladoye, Michael O. Adetayo, Emmanuel C. Chukwuma and Amusa N Adetunji. Annals of Biological Research, 1 (4) : 1-15, 2010.

Evaluation of antibacterial activity of some medicinal plants on common enteric food-borne pathogens A. O. Ajayi and T. A. Akintola. African Journal of Microbiology Research Vol. 4 (4), pp. 314-316, 2010.

 

 

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PEREGUN ELEPE E OYEKU MEJI

Oyeku meji

Eji Ogbè é luz, Oyeku é escuro. Ele é a contração. É o mistério do desconhecido. Isso se refere a o fim de um ciclo. Muitas pessoas equivocadas surtam quando Oyeku é lançado, porque significa morte. Mas raramente significa morte física; e mesmo se isso acontecer, e daí? Em Ifa dizemos: “A Terra é o mercado, Orun é a casa. “Então, quem teria medo de ir para casa? A questão seria se estará advertindo de morte prematura. Em Ire (manifestação positiva), Oyeku traz uma bênção de Alaafia (paz). Em ibi (manifestação negativa), isso significaria um final prematuro de um ciclo.

Oyeku Meji, da contração de o yeye iku, significa espírito da “mãe da morte”. É uma referência à idéia de que nada no universo é criado ou destruído, é simplesmente transformado. Morte representa qualquer final do ciclo, por exemplo, o fim da pobreza, o fim de problemas de saúde, o fim de confusão, e o fim da solidão. Neste contexto morte é um positivo e também representa o final dos ciclos, por exemplo, o fim da infância, o fim da vida adulta, e finalmente, o fim desta vida como um trampolim para a próxima vida.

 

EjiOgbe e Oyeku Meji “deram à luz” para os restantes ODU Meji. Este relato nos mostra que Oyeku contém a resposta a qualquer mal (como a morte ou doença), que pode vir a Oyeku.

Quando Ifá adivinhou para 165 árvores, entre as árvores a palmeira e a árvore ayinre (Albizia sp.) ofereceram um frango. Desde então, quando um tornado se engraçava, a jovem palmeira logo declarava: “Eu fiz ebó para escapar do perigo”. As palmeiras não são afetadas por furacões porque elas fizeram ebó, e o perigo será sempre evitado.

Dracaena arborícola

ewe peregun (Dracaena fragrans) ewe awerepere (Spilanthes filicaulis) ewe apasa apese (desconhecida) ose dudu (sabão-da-costa).

“Secar ao sol, peneirar e desenhar o primeiro de quatro odu e Orangun Meji. Misture com sabão preto e lavar.”

 

Igi pepepe, igi pasepase,

o ni oun ni won n pe ni peregun

peregun elepe pepe fun mi nigba yii o

peregun elepe awere pepe

ifa ni o pelepe fun wa awerepere

Ewe Peregun- Dracaena fragrans

A árvore mata maldições

a árvore mata todos os malefícios.

Ele disse que é o que eles chamam Peregun.

Peregun, o Mestre das maldições

me ajude a destruir todas as maldições na minha vida, peregun, mestre de maldições,

Awure pepe ifa vai matar a pessoa que diz a maldição..

 

 

Spilanthes filicaulis (awerepepe) Fonte: http://www.medicinalplantsinnigeria.com

 

FRAGMENTO EXTRAÍDO DE OYEKU MEJI. LEIA MAIS EM: http://www.awofategbe.com/uploads/8/3/3/9/8339831/oyeku_meji.pdf

 

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Egbomi Cidália de Iroko

Parte do iroco do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues (IML - Salvador-Bahia), caiu hoje (05/07/2016). Todos os anos esse mesmo iroco era homenageado pela Ebomi Cidália. FOTO: Barabô Editora

 

 

ERÓ IROKO IZÔ,

ERÓ IROKO SILE..

 

“Ebomi Cidália Soledade foi uma religiosa do Candomblé. Foi iniciada ainda criança, sendo consagrada como filha de Iroko, um orixá raro na nação de que ela faz parte: Ketu. Era filha de santo de Mãe Menininha do Gantóis, a quem tinha um imenso carinho e respeito. Seu jeito fácil, engraçado e direto de falar do Candomblé e seus ancestrais, fazia com que as pessoas tivessem ainda mais prazer em escutá-la.”

 

Egbomi Cidália de Iroko

“Ebomi Cidália foi consagrada ao orixá Iroko, logo aos 7 anos de idade por Mãe Menininha. Faleceu em março de 2012, após uma longa trajetória dedicada à manutenção e divulgação das tradições culturais e religiosas da religião, tendo atuado em diversos espaços como Conselho de Desenvolvimento da Comunidade Negra (CDCN) e em palestras, seminários e ambientes acadêmicos.”

 

Kini Iroko nso Ęró ni Iroko nso Ęró…

 

Egbomi Cidália de Iroko

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ADURA OSANYIN

ADURA OSANYIN

 

Esinsin abedo kinnikinni,

Akepe nigba oran,

Elese kan ju elese meji,

Ewe gbogbo kiki oogun,

Ewe a je, oogun a je fun mi,

Loni emi fe ire re,

Osanyin jowo fun mi nire,

Fun mi ni ola,

Wa wo mi san,

Ki o si fun mi ni aabo,

oro ati alafia.

 

Pessoa que tem fígado como cristal,

Pessoa que a gente chama nas dificuldades,

Pessoa de uma perna só e que é mais forte do que aqueles com duas pernas,

Para você todas as folhas são medicinais,

As folhas vão funcionar para mim,

Hoje eu quero a sua bondade,

Mê dê a honra,

Venha me curar,

Para que você me dê proteção, prosperidade e paz.

Axé!

Ossanyin e Aroni

FONTE: “ÀDÚRÀ” A magia das rezas dos orixas africanos. Ademola Adesoji. 1992.

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DICA DE LEITURA: “EQUEDE- A MÃE DE TODOS”/ GERSONICE AZEVEDO BRANDÃO

Equedes Sinha de Oxóssi, Nem de Ogum (Angélica Ribeiro da Silva), Marineide Ferreira Conceição de Oxalá, Maridalva Ferreira Conceição de Oxóssi, e as irmãs Liliane e Nadja Chagas de Oxum. Foto: Dadá Jaques.

“Será lançado no próximo dia 8 de março, às 19h, dia internacional da mulher, o livro “Equede – A Mãe de Todos”, no Terreiro da Casa Branca, em Salvador.

 

A publicação é um testemunho de Gersonice Azevedo Brandão, conhecida como Equede Sinha, que mostra a importância, o respeito e o reconhecimento do cargo de equede dentro do candomblé.

 

 

 

 

 

 

 

 

O cargo concentra os poderes maternais do acolhimento, da concepção, do cuidado e da educação. Além disso, o livro é histórico, já que a vida de Sinha, parida dentro do terreiro da Casa Branca, se funde com a história do mais famoso terreiro de candomblé nagô do Brasil.

 

 

(Foto: Editora Barabo/Divulgação)

Com 172 páginas e mais de 200 fotos – tanto do acervo pessoal da autora e da Casa Branca, quanto dos fotógrafos Dadá Jaques, Flávio Damm, da Fundação Pierre Verger. No livro, também há ilustrações exclusivas do artista Carlos Rezende. O livro, organizado por Alexandre Lyrio e Dadá Jaques, traz ainda histórias inéditas, como a invasão do Posto Esso imposta contra o terreiro na década de 70.

(Foto: Editora Barabo/Divulgação)

 

O livro Equede – A Mãe de Todos é uma declaração de amor da Equede Sinha ao povo de axé e especialmente à família da Casa Branca, a sua mãe biológica, vovó Conceição e as entidades de luz, os Orixás. Uma leitura que ensina um pouco da cultura afro-brasileira e muito da nossa história. E como diz a própria autora. Equede é mãe. De Exu a Oxalá.”

Texto publicado no site: http://g1.globo.com/bahia/noticia/2016/02/livro-equede-mae-de-todos-tera-lancamento-no-terreiro-da-casa-branca.html

 

Lançamento do livro na Casa Branca do Engenho Velho- Salvador (Foto: Editora Barabo/Divulgação)

(Foto: Editora Barabo/Divulgação)

 

Autora: Gersonice Equede Sinha Azevedo BrandãoLivro: Equede – A Mãe de Todos

Organização: Alexandre Lyrio e Dadá Jaques

Editora: Barabô (Salvador, 2016)

Valor: R$ 150,00

Leia a matéria completa em: Equede: A mãe de todos − um livro sobre amor, ancestralidade e mulheres de partido alto – Geledés http://www.geledes.org.br/equede-mae-de-todos-um-livro-sobre-amor-ancestralidade-e-mulheres-de-partido-alto/#ixzz4ABUoIAqE

 

Gunfaremim tietando mãe Sinha

 

 

Grande noite de autógrafos na Casa Branca

 

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AS FOLHAS FUNCIONAM! AS FOLHAS NOS DEFENDEM!

“Ewé pélé pé aní tó pé o, ewé pélé pé aní tó pé,

Obé pèlé pé, a fun pèlé bé

Làkà ká a fún o ní féréré, ewé pèlé pé a ní to pé o”

 

Como afiado é o fio da faca, que as folhas sejam como a faca que nos protejerá de todo mal.

E que em todos os lugares encontremos a felicidade!

Axé!

 

 

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DICA DE LEITURA: ORDEP SERRA/”O mundo das folhas”

 

 

O mundo das Folhas- Ordep Serra

Livro publicado em 2002 pela Universidade Estadual de Feira de Santana, tendo por organizadores Ordep Serra, Eudes Velozo, Fábio Bandeira e Leonardo Pacheco. Contém seis ensaios, além da Introdução assinada pelos organizadores. O estudo intitulado “Um banco de folhas”, escrito por Ordep Serra, Fábio Bandeira e Jussara Dias, traz, além de uma descrição esquemática, a explicação da estrutura do banco de dados sobre a etnobotânica dos candomblés de rito nagô na Bahia que resultou da PESQUISA OSSAIN II, realizada por uma equipe multidisciplinar sob a coordenação de Ordep Serra.

Segue-se o estudo de Ordep Serra intitulado “Ossain e seu mundo: a etnofarmacobotânica dos candomblés nagôs da Bahia”. Vem depois o ensaio “A etnofarmacologia dos terreiros nagô-baianos”, de autoria de Eudes Velozo, Maíra M. Barreto, Eleodora Lopes de Jesus e Cinara Vasconcelos da Silva. O ensaio seguinte, um estudo lingüístico intitulado “As folhas e os nomes”, é de autoria de Marina Martinelli. Seguem-se, finalmente, dois estudos de Leonardo Pacheco, intitulados, respectivamente, “Estratégias de obtenção de plantas de uso litúrgico em terreiros de candomblé de Salvador” e “No princípio, o mercado: comércio de plantas para fins medicinais e religiosos na Feira de São Joaquim, Salvador, Bahia”.

 

 

Editora: UEFS/EDUFBA
Autor(es): SERRA, O. J. T. (Org.) ; VELOZO, E. (Org.) ; BANDEIRA, F. (Org.) ; PACHECO, L. (Org.)

237 páginas
1ª edição (2002)
Assunto: Antropologia, Teoria Antropológica, Estudos de Gênero, Antropologia da Religião, Ritos Afro Brasileiros, Candomblé; folhas; etnobotânica; Etnobiologia; etnoecologia; Nagô.

ISBN: 8573950862

 

LEIA UMA NOTA SOBRE O LIVRO CLICANDO AQUI: https://ordepserra.files.wordpress.com/2008/07/nota-sobre-o-mundo-das-folhas1.pdf

 

LEIA TAMBÉM: http://etnoecologia.uv.mx/Etnoecologica/Etnoecologica_vol4_n6/frame_sup_art_ordep_etal.htm

 

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SALVE AS FOLHAS! EWE O!

Ako bile Agué o

Ako bile ile

Ae ae Agué

Ae ae Ossayin

Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Ewe mehuntó, ewe mehuntó

Ewe mehuntó a insaba la titun

Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Ewe Agué, ewe Agué

Ewe Agué, a insaba ba unló

Jardim Botânico do Rio de Janeiro- Escultura de Tati Moreno

Jardim Botânico do Rio de Janeiro- Escultura de Tati Moreno

Ê tobojo ague tororô

Ê zambê ague mahumbê

Ê tobojo ague tororô

Ê zambê ague mahumbê

 

Jonatas Gunfaremim

 

Jardim Botânico do Rio de Janeiro- Escultura de Tati Moreno
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O culto às folhas sagradas no candomblé, sustentabilidade e saúde

Jonatas Jose Luiz Soares da Silva

Vanessa Soares da Silva

1- Introdução

 

Quando chegaste mais velhos contavam estórias. Tudo estava no lugar. A água. O som. A luz. Na nossa harmonia. O texto oral. E só era texto não apenas pela fala, mas porque havia arvores, parrelas sobre o erepitar de braços da floresta. E era texto porque havia gesto. Texto porque havia dança. Texto porque havia ritual. Texto falado ouvido e visto. E certo que podias ter pedido para ouvir e ver as estórias que os mais velhos contavam quando chegastes! Mas não! Preferiste disparar canhões. A partir daí, comecei a pensar que tu não eras tu, mas outro, por me parecer difícil aceitar que da tua identidade fazia parte esse projeto de chegar e bombardear o meu texto. Mais tarde viria a constatar que detinhas mais outra arma poderosa alem do canhao: a escrita. E que também sistematicamente no texto que fazias escrito intentavas destruir o meu texto ouvido e visto. Eu sou eu e a minha identidade nunca a havia pensado integrando a destruição do que não me pertence. (RUI, 1985)

 

A diáspora africana foi uma das maiores dos tempos pré-modernos. Ela integra a população, que resulta da deportação dos africanos da época do tráfico escravagista dos séculos XVI ao XIX e de seus descendentes pelo mundo, aonde, dentre as diferentes rotas, chegaram ao Brasil. (HEIWOOD, 2008)

O termo diáspora é utilizado para designar o conjunto dos membros de uma determinada comunidade, dispersos por diversos países, embora durante muito tempo tenha sido associada principalmente à dispersão de judeus na Antiguidade. Segundo sua etimologia a palavra “diáspora” deriva do grego sporo (semente) e speira (semear).

Conforme nos informa Lopes (2004), a partir da diáspora africana, ou melhor, com a vinda forçada de negros africanos, estes trouxeram seus rituais e sua visão do mundo vegetal para o “Novo Mundo”. Foram diversos os grupos étnicos que aqui aportaram em levas sucessivas. Primeiro o grupo banto, nos séculos XVI (negros da Guiné) e XVII (negros de Angola). Depois chegaram os Jeje-Nagô, nos séculos XVIII e XIX (negros da Costa do Marfim e do Dahomé), inclusive durante o período de proibição do tráfico, entre 1816 e 1850.

A chegada dos Jeje-Nagô no continente americano ocorreu principalmente entre os anos de 1770 a 1850, em decorrência das guerras de conquistas e as quedas dos reinos de Oyó e Ketú (a partir de 1789), com o ataque do rei de Abomey, capital do Dahomé (atual Benin) a estes dois reinos. Este rei, aliado dos colonizadores europeus, forneceu grandes contingentes de escravos, que foram trazidos para a América.

Esses homens e mulheres, ao serem escravizados, foram destituídos de diversos elementos que lhes conferiam identidade, privados das condições de prosperar na sociedade, de serem respeitados como seres humanos e da chance de constituir uma família. Entretanto, no meio de toda adversidade se uniram à surdina das senzalas, revivendo suas memórias e reconstruindo sua cultura. Segundo Bastide (1958, p. 67),

A África enviou ao Brasil criadores e agricultores, homens da floresta e da savana, portadores de civilizações totêmicas matrilineares e patrilineares, pretos conhecendo vastos reinados, outros não tendo mais que uma organização tribal, negros islamizados e outros animistas africanos possuidores de sistemas religiosos politeístas e outros, sobretudo adoradores de ancestrais de linhagem.

Muitas práticas culturais foram utilizadas como forma de socialização da diáspora africana no Brasil. Sodré (1983, p. 132) nos informa:

Se os folguedos, as manifestações religiosas, ‘as brincadeiras’ eram permitidos pelo ‘senhor branco colonizador’, as populações negras utilizavam estas práticas para reviver os ritos, cultuar os deuses e manter-se ‘identificados’, compartilhando uma origem comum.

É nesse contexto que vai se moldando o candomblé, resultado dos mitos, rituais, símbolos e da linguagem sagrada, que viajaram na diáspora e foram recriados em terras brasileiras.

Certeau (1994) afirma que os cultos religiosos foram, ao longo da história das populações africanas no Brasil, um lugar de negociação, de resistência e também de táticas. Nos chamados terreiros ou roças de candomblé a tradição foi sendo mantida, e ao mesmo tempo, ressignificada em seu cotidiano, estabelecendo assim seu registro e sua marca no espaço urbano. (CARVALHO, 1992; AMARAL, 1996) É importante ressaltar que, apesar da cultuada simbologia e tradição, a prática do Candomblé ainda sofre com o estigma da marginalização, que está intimamente ligada a séculos de estereótipos e preconceitos. (CARVALHO, 2005; NASCIMENTO, 2008; SILVA, 2009)

 

2 Os vegetais e o sagrado

 

O estabelecimento de diferentes abordagens na atenção primária em saúde, segundo o Ministério da Saúde preconizam a atuação de opções preventivas e terapêuticas de saúde. Neste sentido, as comunidades tradicionais de terreiro são espaços que agregam, acolhem e aconselham uma gama significativa da população brasileira historicamente excluída do sistema de saúde.

Sabe-se que muitas plantas cultivadas nos terreiros têm um emprego sacro na religião dos orixás, inkicies e voduns (nomes que recebem as divindades africanas). Associadas a dedicação de oferendas alimentares produzidas à base de plantas domesticadas constitui-se num sistema fundamental, indispensável ao funcionamento dessa religião. (BARROS; NAPOLEÃO, 1999) A liturgia das folhas associada à ritualística religiosa implica também no emprego de plantas colhidas em áreas não cultivadas. Podemos afirmar que essa liturgia é tão fundamental para a prática do candomblé que o mesmo não sobreviveria sem o culto às folhas. Essa afirmação pode ser ilustrada a partir de um ditado iorubá muito conhecido nas casas de candomblé: “Kó sí ewé, kó sí orisá”. Ou seja, sem folha, sem santo. (BARROS, 1993; BARCELLOS, 2008)

Neste sentido, refletir sobre as práticas de saúde, a partir dos saberes e fazeres dos povos das comunidades tradicionais é rever um tempo, em que pretos e pobres estavam sujeitos à própria sorte de doenças e o conhecimento que possuíam serviam para a garantia e a sobrevivência de si como dos seus.

Negros e negras eram exímios manipuladores de ervas com fins mágicos, tanto para o preparo dos filtros de amor, visando estimular o apetite sexual de seus senhores, com o intuito de seduzi-los, muitas vezes para se vingarem de suas patroas, como, também, sabiam preparar poções poderosas capazes de enfraquecer o cérebro dos senhores, fazendo-os cair em inanição e morrer latentemente. Visavam também dar aos feitores a fim de torná-los mais brandos na convivência diária. (CAMARGO, 2007, p. 31 )

Tais práticas de saúde, a guisa de exemplo, proveniente dos conhecimentos tradicionais de uso das folhas medicinais podem ser citados a partir do manuseio e da manipulação de algumas folhas como: o akonijé (nome vulgar: papo de peru), atribuído aos orixás do panteão iorubano Oxum e Ossain, desaconselhado às mulheres grávidas, em virtude de suas propriedades abortivas. (BARROS; NAPOLEÃO, 1999) O alékèsi (nome vulgar: são gonçalinho), erva atribuída ao orixá Oxóssi, simbolicamente manifesta-se como uma folha de defesa e proteção. Suas folhas são igualmente sagradas porque possuem o poder de afastar a negatividade. Por isso, segundo Barros e Napoleão (1999) suas folhas e seus galhos eram colocados sob a esteira da iaô com o intuito de protegê-lo durante o período de recolhimento. Protegendo-o deste modo às influencias de Exú e dos eguns. Sabe-se, a partir deste conhecimento não ocidental, que essas práticas tradicionais serviam e ainda servem à associação da saúde e bem estar dos grupos negros, esquecidos pelo sistema de saúde.

Ao se falar das práticas de saúde da população negra, fica evidenciado o sofrimento psíquico de um grupo acostumado ao (des)enraizamento de sua cultura. Revivida em sua plenitude nos espaços-terreiros, essas práticas tradicionais tem contribuído para a permanência e a manutenção das populações negras. Outro destaque pode ser citado durante uma conversa sobre amenidades entre membros da comunidade do terreiro Ile Asé Omin, localizado em Cachoeiras de Macacú, interior do município do Rio de Janeiro. Falava-se sobre a maternidade e como algumas mulheres, atualmente, não estariam preparadas ao seu exercício. Algumas diziam que muitas tinham seus filhos a partir da ajuda de parteiras,[1] na modalidade de parto normal e que logo após a dor do nascimento ficavam de resguardo, mas retornavam logo a rotina, diferente do que acontece hoje com as mulheres que preferem a cesariana. Segundo uma ekede da referida casa, isso seria uma incoerência, já que teve seus dois filhos com o auxílio de uma parteira. Explicou, ainda, que as mulheres mais velhas recomendavam o resguardo, e o hábito de uma alimentação reforçada para garantir um bom aleitamento e força da mãe. Quando a criança nascia, segundo ela, era fundamental garantir a proteção do bebê que ficava à cargo de pequenos patuás (breves), colocados por dentro da roupa e dos berços da crianças e no corpo da mãe, contra o mau olhado. Outro destaque de sua narrativa é que quando a criança bocejava demais era fundamental que a mesma fosse levada a uma boa benzedeira, a fim de tirar o temido mal de quebranto.[2] (PRIORE, 2007)

Muitas benzedeiras, como Ana Martins, citada no livro da historiadora Mary Del Priore, invocavam o nome dos santos de sua devoção por três vezes, benzendo o doente ou as suas roupas com a utilização de folhas específicas, potencializadas por palavras e rezas evocadas por certo número de vezes. Essas mulheres contribuíam para a saúde das populações negras, sendo perseguidas pela Igreja como feiticeiras, mortas ou aprisionadas por práticas de curandeirismos. Apesar de vilipendiadas pela sociedade ocidentalizada, elas eram reconhecidas e respeitadas por suas comunidades, devido ao seu conhecimento aprendido e transmitido pela oralidade. Saberes e fazeres que passavam de mãe para filha.  Percebe-se então que os espaços negros sempre foram os produtores de saúde da população negra, já que estão intimamente ligados à produção de saúde, mediante o restabelecimento da identidade cultural de seus adeptos, por meio de sua inserção na estrutura mítica que constitui uma visão de mundo totalitária.

 

3 Etnobotânica e sustentabilidade ambiental

 

O estudo do uso e conhecimento de plantas por grupos humanos tem sido objeto de pesquisas de grande relevância, e vem sendo incorporado na disciplina chamada etnobotânica. Numa perspectiva histórica e fitogeográfica, a etnobotânica torna possível o reconhecimento da distribuição, origem e diversidade de plantas cultivadas no tempo e no espaço. (ALBUQUERQUE, 1997a)

Com o desenvolvimento das ciências naturais e posteriormente da antropologia, o estudo das plantas e seus usos por diferentes grupos humanos passou a ter outra visão. A partir de meados do século XX, a etnobotânica começa a ser compreendida como o estudo das inter-relações entre povos primitivos e plantas, envolvendo o fator cultural e sua interpretação. (HAVERROTH, 1997)

Xolocotzi (1982) definiu a etnobotânica como o campo científico que estuda as inter-relações que se estabelecem entre o ser humano e as plantas através do tempo e em diferentes ambientes. Ford (1986) definiu como o estudo das inter-relações diretas entre homens e plantas. Ming (1995) ampliou o conceito, abrangendo todos os aspectos da relação do ser humano com as plantas, seja de ordem concreta (uso material, conservação, uso cultural, desuso) ou aberta (símbolos de culto, folclore, tabus, plantas sagradas).

Por causa dessa abrangência, a prática da etnobotânica necessita de uma elaboração e colaboração interdisciplinar, recebendo diferentes enfoques com o passar do tempo, cada qual refletindo a formação acadêmica dos pesquisadores envolvidos. Sendo de natureza interdisciplinar, permitiu e permite agregar colaboradores de diferentes ciências, com enfoques diversos como o social, cultural, da agricultura, da paisagem, da taxonomia popular, da conservação de recursos genéticos, da linguística e outros.

Os Jeje-Nagô, oriundos do sudeste africano, sempre utilizaram os vegetais não apenas como alimento e remédio para o corpo, mas também para o espírito, a fim de prover o bem estar pessoal ou coletivo. (ALBUQUERQUE, 1997b)

Diversos quintais possuem plantas para alimentação. Ervas medicinais de usos diversos, o que torna interessante uma leitura do papel da etnobotânica desses espaços para a sobrevivência e a vivência de saberes sobre a saúde, gestão de áreas de risco, e da biodiversidade, em outras matrizes culturais, que não só a europeia. Os saberes produzidos e guardados pela memória, reproduzidos pela oralidade, dão significação aos espaços dos quintais e das plantas neles inseridas, segundo nos informa Oliveira (2008). Os saberes etnobotânicos dos afrodescendentes, manifestados na gestão e planejamento de seus quintais, refletem os vínculos rurais e urbanos que parecem abrir caminho para a compreensão de novas territorialidades e desses espaços, importantes para construção de redes de solidariedade e trocas de saberes. Esses grupos formam verdadeiras comunidades tradicionais.

Nessa perspectiva, Diegues (1996) avança na caracterização das populações nomeadas tradicionais, definindo-os através de elementos tais como: dependência e simbiose[3] com a natureza; moradia e ocupação do território por várias gerações; importância das atividades de subsistência; reduzida acumulação de capital; tecnologia simples e de baixo impacto ao meio-ambiente; importância das simbologias, mitos e rituais associados à natureza e fraco poder político.

A noção de “população tradicional” expressa, segundo Barretto (2001, p. 110), “um conjunto de valores culturais coletivos relativos ao meio-ambiente – percepções, valores e estruturas de significação que orientam e estão na origem de certas políticas ambientais.” Por outro lado, tal conjunto de valores não garante e nem legitima o direito de permanência dessas populações em suas terras. (CARVALHO, 1992)

Baseada em conceitos advindos da Ecologia e da teoria biológica evolucionista, a sociedade ocidental adotou o conceito de sustentabilidade ecológica como principal referencial científico para se pensar as relações entre as populações humanas e o meio ambiente. A sustentabilidade ecológica pode ser entendida como a capacidade de uma determinada população ocupar um dado local, explorar os seus recursos naturais ao longo do tempo, sem por isso ameaçar a integridade ecológica do meio ambiente. (LIMA; POZZOBON, 2005)

Dentro dessa ótica, podemos afirmar que maior será o grau de sustentabilidade ambiental quanto menos houver a degradação ambiental, alterações microclimáticas, destruição de habitat, poluição e exploração de recursos renováveis, acima de sua capacidade de regeneração e resultante extinção de espécies. (SILVA et al., 2010; MARQUES; AGUIAR; SILVA, 2011) Nesse aspecto, podemos sugerir que  as comunidades terreiro apresentam elevado grau de sustentabilidade ambiental, uma vez que possuem baixa densidade populacional e demanda limitada por recursos naturais, além de um profundo conhecimento ecológico, perpetuado através da relação estreita com sua cosmologia.

Associado à classificação do grau de sustentabilidade da ocupação, identificamos o tipo de conhecimento que cada categoria socioambiental tem a respeito do ambiente que ocupa. Cultura ecológica mitógena (advinda do mito) é aquela em que os elementos do ambiente natural são pensados segundo seu papel no mito e seu lugar no cosmo nativo. (LIMA; POZZOBON, 2005)

Ossaim era o nome de um escravo que foi vendido a Orumilá. Um dia ele foi à floresta e lá conheceu Aroni, que sabia tudo sobre as plantas. Aroni, o gnomo de uma perna só, ficou amigo de Ossaim e ensinou-lhe todo o segredo das ervas. Um dia, Orumilá, desejoso de fazer uma grande plantação, ordenou a Ossaim que roçasse o mato de suas terras. Diante de uma planta que curava dores, Ossaim exclamava: ‘Esta não pode ser cortada, é a erva que cura as dores’. Diante de uma planta que curava hemorragias, dizia: ’Esta estanca o sangue, não deve ser cortada’. Em frente de uma planta que curava a febre, dizia: ’Esta também não, porque refresca o corpo’. E assim por diante. Orumilá, que era um babalaô muito procurado por doentes, interessou-se  então pelo poder curativo das plantas e ordenou que Ossaim ficasse junto dele nos momentos de consulta, que o ajudasse a curar os enfermos com o uso das ervas miraculosas. E assim Ossaim ajudava Orumilá a receitar e acabou sendo conhecido como o grande médico que é. (PRANDI, 2001, p. 152)

Esse tipo de cultura ecológica tem como peculiaridade a transmissão oral de conhecimentos de uma geração para a outra. A cultura ecológica das comunidades terreiro compõe-se de fragmentos de diversas tradições, não sendo referida a um cosmo único nem a um ciclo coeso de mitos. Como entre as sociedades ameríndias, a esta cosmoecologia correspondem modelos de interação com o ambiente embasados em uma série de mitos, sanções e tabus que regulam as atividades de exploração das diversas espécies naturais.

Segundo Jacobi (2003, p.191),

Refletir sobre a complexidade ambiental abre uma estimulante oportunidade para compreender a gestação de novos atores sociais que se mobilizam para a apropriação da natureza, para um processo educativo articulado e compromissado com a sustentabilidade e a participação, apoiado numa lógica que privilegia o diálogo e a interdependência de diferentes áreas de saber. Mas também questiona valores e premissas que norteiam as práticas sociais prevalecentes, implicando mudança na forma de pensar e transformação no conhecimento e nas práticas educativas.

A realidade atual exige uma reflexão cada vez menos linear, e isto se produz na inter-relação dos saberes e das práticas coletivas que criam identidades e valores comuns e ações solidárias diante da reapropriação da natureza. Rattner (1999, p. 234) nos informa:

Enquanto as práticas dominantes na sociedade (econômica, política, cultural) são determinadas pelas elites de poder; essas mesmas elites são também as principais referências para a produção e disseminação de idéias, valores e representações coletivas. Assim, a força e a legitimidade das alternativas de desenvolvimento sustentável dependerão da racionalidade dos argumentos e opções apresentadas pelos atores sociais que competem nas áreas política e ideológica. Cada teoria, doutrina ou paradigma sobre sustentabilidade terá diferentes implicações para a implementação e o planejamento da ação social.

A forma como as diferentes comunidades-terreiro costumam usufruir dos recursos naturais pode ser um excelente indicador de sustentabilidade ambiental. Barros (1993, p. 40) sinaliza: “as plantas são muito sestrosas e se não se faz as coisas direito, elas desaparecem”. Caso a necessidade obrigue a coleta noturna, será necessário “acordar”a folha, que será colocada na palma da mão, uma por uma, dando três tapinhas e dizendo três vezes, ‘acorda’”.

Podemos presenciar em uma ocasião o relato de uma mãe de santo, que dizia:[4] “Toda vez que for coletar folhas para uma iniciação nunca se deve tirar mais que o suficiente, tendo o cuidado de sempre deixar alguns pés para futuras coletas”. Essa fala revela uma preocupação em usufruir dos recursos naturais sem esgotá-los ou comprometer suas reservas, o que poderia violar os direitos de uso por parte das gerações futuras. Podemos afirmar, dessa maneira, que a cultura ecológica das comunidades-terreiro contribuem não só para a manutenção da sabedoria ritualística, mas também para outros tipos de saberes. Tais princípios educativos se contrapõem a uma visão individualizante e burguesa do que se propõem como consciência ecológica.

Santos (2009) nos informa: “São saberes que muitas vezes são incorporados por pessoas de outras religiões.” Poderíamos nos reportar a Leonardo Boff como sendo:  um saber lidar com a água, com a terra e com as folhas que pode ser traduzido no “Saber Cuidar”, classificado pelo referido autor como postura ética diante do universo, reconhecendo-se o valor do que realmente importa, do que está relacionado não à lógica utilitarista do capital, mas à dimensão de alteridade, respeito, sacralidade, troca e complementaridade. (JESUS, 2008)

 

4 O culto às folhas e as divindades africanas

 

A utilização de espécies vegetais pelas comunidades afrodescendentes é essencial, e ocorre desde os seus primórdios. Na África eram utilizadas uma grande variedade de plantas, que tinham funções bem específicas no culto às diferentes divindades. De acordo com Voeks (1990) algumas dessas espécies só eram encontradas nesse continente, sendo muitas endêmicas, ou seja, só cresciam em determinadas cidades ou regiões.

Com a chegada de povos provenientes de outros continentes, entre eles os portugueses, começa-se a observar a introdução de novas espécies no território africano. Dessa forma essas novas espécies, até então desconhecidas, vão se incorporando ao cotidiano desses povos a ponto de serem utilizadas nos rituais aos orixás, inkicies e voduns. A partir do inicio do período escravocrata, diversas etnias africanas são levadas ao resto do mundo na condição de escravos.

Uma dessas rotas teve como destino o Brasil. Pois bem, ao chegarem a terras brasileiras os africanos se deparam com um mundo novo, uma fauna e flora bem diferente daquela a que estavam habituados. Na sua nova condição tiveram que se adaptarem as condições que lhe foram impostas. Dessa maneira, ao mesmo tempo em que o candomblé vai sendo moldado, novas folhas vão sendo incorporadas à ritualística.

Podemos exemplificar o culto a Opaoká,[5] divindade ligada aos orixás Odé e Inlé,[6] e as Iyami Eleye.[7] Em terras africanas o seu culto se fazia através do mogno africano (Khaya grandifoliola) sendo substituído pela jaqueira (Artocarpus heterophyllus) em terras brasileiras. (BARROS; NAPOLEÃO, 1999) É interessante observar que a jaqueira, por sua vez, foi introduzida no Brasil pelos colonizadores, sendo originária da Ásia. Da mesma forma temos a gameleira (Ficus doliaria) que aqui substituiu o verdadeiro Ìrókò africano (Chlorophora excelsa), citado diversas vezes por Verger (1995). Em algumas casas temos a arvore Òró (mangueira – Mangifera indica), servindo também como morada para Ìrókò. A mangueira, assim como a jaqueira, foi introduzida no país pelos portugueses, se tratando na verdade de uma árvore asiática e tida como sagrada entre os indianos, que a chamavam pelo nome sânscrito de “amra” (aquele que serve às criaturas). Um mito que ilustra a importância das árvores:

Um dia as Iá Mi vieram para a Terra e foram morar nas árvores. As Iá Mi fizeram sua primeira residência na árvore do orobô. Se Iá Mi está na árvore do orobô e pensa em alguém, este alguém terá felicidade, será justo e viverá muito na terra.As Iá Mi Oxorongá fizeram sua morada na copa da árvore chamada araticuna-da-areia. Se Iá Mi esta na copa da araticuna-da -areia e pensa em alguém, tudo aquilo de que essa pessoa gosta será destruído. As Iá Mi fizeram sua terceira casa nos galhos do baobá. Se Iá Mi está no baobá e pensa em alguém tudo o que é do agrado dessa pessoa lhe será conferido. As Iá Mi fizeram sua quarta parada no pé de Iroco, a gameleira-branca. Se Iá Mi esta no pé de Iroco e pensa em alguém, essa pessoa sofrerá acidentes e não terá como escapar. As Iá Mi fizeram um quinta residência nos galhos do pé do Apaocá. Se Iá Mi esta nos galhos do Apaocá e pensa em alguém, rapidamente essa pessoa será morta. As Iá Mi fizeran sua sexta residência na cajazeira. Se Iá Mi está na cajazeiraa e pensa em alguém, tudo o que ela quiser poderá fazer, pode trazer a felicidade ou a infelicidade. As Iá Mi fizeram sua sétima morada na figueira. Se lá Iá Mi esta na figueira e alguém lhe suplica o perdão essa pessoa será perdoada pela Iá Mi. Mas todas as coisas que as Iá Mi quiserem fazer, se elas estiveram na copa da cajazeira elas o farão, porque na cajazeira é onde as Iá Mi conseguem seu poder. Lá é sua principal casa, onde adquirem seu grande poder. Podem mesmo ir rapidamente ao além, se quiserem, quando estão nos galhos da cajazeira. Porque é dessa árvore que vem o poder de Iá Mi e não é qualquer pessoa que pode manter-se em cima da cajazeira. (PRANDI, 2001, p. 348)

Para o africano, cultivar a memória de seus ancestrais foi vital. A ancestralidade permitiu a manutenção da sua identidade enquanto povo, diante da diáspora. (CAPUTO;PASSOS, 2007) O saber ancestral que é cultivado hoje nas diferentes casas de candomblé é fruto da formidável capacidade de assimilação e recriação do saber de diversas etnias que aqui se encontraram. (LUZ, 2002) A partir desse olhar podemos dizer que houve uma hibridização[8] desses conhecimentos, o que fez com que fosse possível a sincretização das diferentes divindades. Assim o culto de Sogbò[9] é confundido com o de Xango,[10] Oyá[11] e Onira,[12] Oxún[13] e Dandalunda[14] etc. Observamos muitas vezes uma tentativa de uniformização no culto dos mesmos, que passam a receber oferendas e folhas semelhantes.

É interessante ressaltar que essas trocas já aconteciam em território africano, porém foram catalisadas quando em nosso país. Para tornar ainda mais complexa essa história, devemos nos lembrar dos povos que habitavam o Novo Mundo, os índios. Esses povos também possuíam um amplo conhecimento acerca das diferentes espécies vegetais brasileiras. Com a aproximação entre africanos e indígenas, a exemplo das comunidades quilombos, houve uma forte troca de conhecimentos. Esses conhecimentos foram incorporados no candomblé, principalmente os que cultuam os encantados conhecidos como caboclos. (SERRA, 1995)

Basta observarmos algumas similaridades entre Ossayin, orixá das folhas, e os Caboclos (entidades brasileiras das matas). Um elemento muito utilizado no culto das duas divindades é a folha do tabaco (Nicotiana tabacum). Entre os Krahô de Tocantins, é comum durante o ritual de cura, se fumar através de um cachimbo as folhas do tabaco e da maconha (Cannabis sativa). Cannabis esta que é originária da Ásia e que é conhecida nos candomblés Ketú como Ewé Igbó, sendo atribuída ao orixá Esú. (BARROS; NAPOLEÃO, 1999)

Um caso interessante é o do àgbàdó, nome pelo qual os iorubá dão ao milho (Zea mays). Embora já fosse utilizado antes do conhecimento oficial das Américas, tem como origem esse continente. Para os incas, maias e astecas tinha um cunho religioso fortíssimo. Os maias possuíam um deus do milho, de nome Yuin Kax, que trazia em sua cabeça o número oito. Essa divindade era tida como deus dos bosques, regendo a prosperidade e abundância, estando também relacionada à morte. Ora, o milho é a comida predileta de Oxóssi, deus da caça, aquele que habita as matas, que traz a prosperidade para a cidade, o que pode ser facilmente identificado em seus mitos. (AYOH’OMIDIRE, 2006) Oxóssi também tem estreita relação com a morte, sendo saudado de forma especial durante o asese, ritual iorubá fúnebre. (PRANDI, 2000) É com o milho que se prepara o doburu (pipoca) servido ao vodun Sakpatá,[15] intimamente ligado a Ikú (a morte).

Nossos índios guaranis também associavam o milho à figura do caçador, à chegada da prosperidade e também à transformação advinda da morte. Para ele,s o milho era um presente de Nhandeyara[16], sendo chamado de Avaty. (GUNFAREMIM, 2010) Trata-se de uma egrégora,[17] ou seja, esse conhecimento ancestral de certa forma acabou convergindo, se entrelaçando entre os diferentes povos. A partir dos estudos etnobotânicos, desvendamos as formas pelo qual essa memória vai sendo preservada e transmitida através das praticas ritualísticas e dos mitos.

 

5 A guisa de conclusão

 

No cenário contemporâneo, trabalhar questões relativas à produção de conhecimentos oriundos de comunidades não hegemônicas, já há muito estabelecidos e enraizados, implica em compreendê-los como formas de expressão da diversidade cultural vivenciada no Brasil. As relações entre saberes, técnicas e conhecimento acerca das folhas sagradas, advindas das comunidades tradicionais do candomblé, nos remetem a outras práticas de permanência e manutenção dos conhecimentos.

A escola, enquanto instituição social, tem a responsabilidade na construção e formação de conhecimentos que demonstrem as contradições ao se reproduzir e não reconhecer os saberes e fazeres das populações negras. Nessa perspectiva, é necessária a construção de novos conceitos que possibilitem a inclusão e a discussão das práticas tradicionais. Parte-se da premissa de que os saberes etnobotânicos produzidos e transmitidos nas comunidades-terreiros estão presentes, por exemplo, na forma de gestão das chamadas “roças de candomblé”, que refletem os vínculos rurais e urbanos ligados à compreensão de novas territorialidades, compondo dessa maneira, verdadeiras redes de solidariedade e de trocas de experiências.

Ainda nessa perspectiva, buscamos comprovar a relação de simbiose existente entre as comunidades de candomblé e os elementos naturais em que as mesmas estão inseridas. Esse “vivenciar a natureza” nos transporta a um conjunto de valores ancestrais, culturais e coletivos relacionados ao meio-ambiente, com percepções e estruturas de significação que estão na origem e podem servir como modelo para diversas políticas ambientais. Os fluxos de saberes etnobotânicos se manifestam até hoje na denominada diáspora africana, e na África também, seja na fitoterapia ou nas expressões de religiosidade através das plantas.

O terreiro de candomblé aparece como ponto de partida para a leitura da etnobotânica africana na diáspora. O terreiro representou uma estratégia de (re)territorialização dos descendentes de africanos na diáspora. Enquanto a quantidade de material bibliográfico vem crescendo de forma substancial, ações efetivas de implementação da Lei 10.639/03[18] por parte das instituições de ensino superior ainda são diminutas. Uma forma de ampliar a inserção e a discussão desta temática no interior dessas instituições se daria através da formação continuada de professores em educação para as relações étnico-raciais. Pouco se tem desenvolvido no sentido de aplicação e abordagem efetiva da Lei federal 10.639/03 nas salas de aula e demais espaços de discussão. Ressalta-se que grande parte dos docentes continua vinculada a uma visão eurocentrista, onde as contribuições tecnológicas dos povos africanos, pré-colombianos e indígenas são simplesmente suprimidas. Francisco Junior (2008, p. 405) nos informa: “A supervalorização de determinadas culturas, por exemplo, a européia, em detrimento de outras, é um ato discriminatório e que frequentemente passa despercebido.”

Neste sentido, é que ressaltamos a necessidade de se dispensar novos olhares sobre a práticas afrodescendentes de saúde, por meio da implementação da Lei nº. 10.639/03, sendo a etnobotânica uma importante ferramenta desse processo.

 

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[1] No Brasil, a tradição de partejar, assim como a de benzer, é resultado dos diálogos culturais entre africanas, indígenas e europeias. [...] Desde épocas remotas, eram elas que viajavam de casa em casa, aldeia em aldeia, atuando como médicas locais. Portadoras de dons e conhecimentos que exigiam destreza com os segredos da natureza e da fé, foram permanentemente requisitadas por pessoas de diferentes classes. (SCHUMAHER; BRASIL, 2007, p. 177)

[2] Segundo a historiadora Mary Del Priore (2007), o mal de quebranto era capaz de adentrar nos corpos de homens, mulheres e principalmente dos infantes. O combate ao quebranto era velho conhecido das benzedeiras e curandeiras, que não hesitavam em utilizar-se das virtudes terapêuticas de espécimes vegetais típicas do Brasil.

[3] A simbiose é uma relação ecológica que implica em uma inter-relação de tal forma íntima entre os organismos envolvidos que se torna obrigatória. Os mesmos não conseguem sobreviver separados.

[4]

[5] Opaoká e Irókò são dois orixás fitomórficos, ou seja, segundo os mitos, possuem a forma de grandes árvores, sendo por assim representados pelas mesmas. (AYOHO’OMIDIRE, 2006)

[6] Odé e Inlé são orixás ligados à figura mítica do caçador, adquirindo assim suas características.

[7] As Iyami Eleye são a representação coletiva da ancestralidade feminina, sendo extremamente temidas e respeitadas dentro dos terreiros de Candomblé. (SILVA, V., 2010)

[8] Híbrido: qualidade de tudo o que resulta de elementos de natureza distinta, mistura de elementos distintos com geração de novas características.

[9] Sogbò: divindade do fogo, na verdade é um dos diversos voduns cultuados pelos Jejé. (FERRETI, 1996)

[10] Xangô: Divindade do fogo cultuada pelos Nagó, sendo por isso um orixá. (BASTIDE, 1978)

[11] Oyá é a deusa dos raios e tempestades, cuja origem geográfica é Tapa, passando a ser integrada no circuito religioso de Oyó, ramo do iorubá. (GLEASON, 2006)

[12] Onira, deusa do rio Osogbo, cultuada nas cidades de Ilexa e Ijebu. (GLEASON, 2006)

[13] Oxun foi esposa mítica de Xangô. É uma deusa nagô ligada à maternidade e às águas dos rios. (BENISTE, 2010)

[14] Dandalunda é um inkiece, ligado ao culto dos inkices, divindades de origem bantu. É a deusa da fertilidade e das águas. (PREVITALLI, 2008)

[15] Sakpatá é uma divindade cultuada nas casas Jejé e que foi assimilado nos rituais Nagô sob a denominação de Omolú. (FERRETI, 1996)

[16] Nhandeyara era um dos nomes dados ao Grande Espírito (Deus) por algumas tribos indígenas. Avaty foi uma figura mítica indígena, representado por um caçador.

[17]Egrégora, ou egrégoro para outros, (do grego egrêgorein – velar, vigiar), é como se denomina a entidade criada a partir do coletivo pertencente a uma assembleia, gerado pelo somatório de energias físicas, emocionais e mentais de duas ou mais pessoas, quando se reúnem com qualquer finalidade. Esse é um conceito místico-filosófico com vínculos muito próximos à teoria das formas-pensamento, onde todo pensamento e energia gerada têm existência, podendo circular livremente pelo cosmo. (PARACELSO, 1976)

[18] A Lei 10.639/03 torna obrigatório nas escolas o ensino da história e cultura africana. (BRASIL, 2003)

 

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Coletânea Candomblés: encruzilhadas de ideias pode ser acessada pelo link

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“Osain”

“Osain”

Quem quer folha, precisa cantar
Cantar para agradar a Natureza
Cantar para chamar o Senhor dos Mistérios da mata

Quem quer folha, tem que pagar
Pagar com fé e seus búzios reais
Pagar com cânticos e pedir…

Mais que pedir, saber pedir e encantar
Para que o Senhor do encanto, encante como manda seu coração

E ela, a Natureza que tudo transmuda, permitirá que Ele te atenda
Permitirá macerar seus sonhos e pedidos que germinarão milagres
Irá macerar seus desejos, pensamentos que Ele devolverá em essência de folha.
Cuidado!

Pague com cuidado,
Não ouse cantar Errado!
Se não quiser pagar pecado
E nunca peça à Natureza, folha com o Coração Zangado.

(Roger Cipó.)

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DICA DE LEITURA: MÃE AFRICA (CELSO SISTO)

O CORAÇÃO DO BAOBÁ

 

 

Ilustração Celso Sisto

Os baobás povoam a África há muito tempo, e são como muitos corações abraçados: fortes e inabaláveis. Mas também são retorcidos, como as voltas de uma história. E com raízes profundas e algumas cicatrizes..

A lebre, depois de um dia cheio de aventuras para obter comida, vinha voltando para casa de mãos abanando e estômago vazio. Certamente sua esposa reclamaria e falaria durante horas em suas já compridas orelhas. Aliás, vai ver que era bem por isso que suas orelhas eram tão grandes: para suportar melhor as reclamações dos outros! A lebre vinha de cabeça baixa, pois era tarde e o peso de tudo a incomodava.

Quando passou por baixo do Baobá, de um que sempre tinha de cruzar, para poder entrar em, sua toca, ouviu as folhas da grande árvore cantando:

” Caluê, caluê dendê.

Sem boca, cantamos pra você.

Caluê, caluê dendê.

Sem voz, falamos com você.

Caluê caluê dendê,

coração sem porta

abre e ninguém vê..”

A lebre jamais tinha reparado na voz daquele Baobá. Ficou com uma vontade enorme de parar e ouvir, mas assim que se encostou ao tronco da árvore, caiu num sono profundo.

 

Árvore Baobá, embondeiros, imbondeiros ou calabaceiras

Acordou assustada, sobressaltada, ainda mais atrasada do que nunca.. Mas parecia que o tempo tinha parado, pois as folhas da majestosa árvore ainda repetiam a mesma cantoria:

” Caluê, caluê dendê.

Sem boca, cantamos pra você.

Caluê, caluê dendê.

Sem voz, falamos com você.

Caluê caluê dendê,

coração sem porta

abre e ninguém vê..”

Então a lebre teve uma idéia. E era sua última oportunidade para não chegar de mãos vazias a sua casa:

-Sabe, seu Baobá? Sua sombra se espalha por um longo terreno, mas bem que seus frutos poderiam fazer o mesmo, não é?

Adansonia digitata (Igi Ose/ Baobá)

Parece que o Baobá aceitou a provocação da lebre, porque na mesma hora bateu uma rajada de vento e os frutos tomabaram aos milhares. A lebre ria de orelha a orelha, enquanto catava o que era possível..

Mas isso ainda não era tudo! Como se não bastasse, o Baobá também ofereceu à lebre o seu coração, cantando:

” Caluê, caluê dendê.

Sem boca, cantamos pra você.

Caluê, caluê dendê.

Sem voz, falamos com você.

Caluê caluê dendê,

coração aberto

abre abre hoje só pra você..”

E como num passe de mágica, o baobá! “shiiiiiishiiiiiiishiiiii!” foi abrindo devagarzinho o seu enorme tronco, deixando a lebre ver tudo o que havia por dentro. Um imenso tesouro, de que ninguém  suspeitava a existência:pedras preciosas, como o brilho da amizade, tecidos bordados em fios de ouro, como alinha que eleva um coração a outro, colares das mais reluzentes pérolas, polidas como o amor..

 

Fruto do baobá, conhecido como "pão de macaco" e muito apreciado na culinária africana

Os olhos da lebre se incendiaram diante de tamanha riqueza. Até faltavam-lhe olhos para admirar toda aquela preciosidade. Parecia que o Baobá dizia em seu ouvido:

Lebre… lebre… leve o que for possível carregar com você… é presente do meu coração!

Em meio ao maravilhamento a lebre se foi, carregando muitos presentes para a sua esposa, o que certamente a deixaria menos raivosa pelo atraso e pela ausência de caça, e … provalvelmente, mais vaidosa, pelo brilho que os enfeites iriam irradiar, de agora em diante.

Na mesma hora a esposa da lebre saiu enfeitada da cabeça aos pés, para exibir-se para a vizinhança. Em seu passeio, encontrou logo a hiena, que encheu os olhos de cobiça… A notícia já se tinha espalhado.

 

Fruto do baobá

-E então, comadre lebre, onde foi mesmo que seu marido arranjou todo esse tesouro?

-No velho Baobá, querida…. -foi logo dizendo a esposa da lebre. E aumentou a história, para parecer também mais importante aos olhos da vizinha. E quanto mais a lebre descrevia a aventura de seu marido, mais a hiena faiscava de inveja!

-Eu também irei até esse Baobá… Pode esperar! Quero só ver o que ele tem para me dar!

Dito e feito. Entre um pôr-do-sol e um amanhecer, lá estava a hiena para tentar a sorte com o Baobá. E tudo se passou exatamente como a lebre havia contado. O Baobá cantou, alargou sua sombra, espalhou seus frutos, abriu seu coração e ofereceu seus tesouros à hiena.

Mas a hiena era mais gananciosa do que o Baobá pensava. Foi pegando tudo e caiu na besteira de levar consigo um enorme embornal, para enchê-lo também de jóias. E ainda fez pouco caso quando pensou ter ouvido o Baobá dizer:

-Leve hiena… leve o que for possível carregar com você… é presente do meu coração!

Com seu riso costumeiro, a hiena dizia para si mesma:

-Eu quero isso… e mais isso… eu quero tudo, tudo só para mim… e se eu não puder levar tudo hoje, pode estar certo de que voltareis em breve para dizimar esse Baobá.

De repente, parece que o Baobá pressentiu o perigo! Rapidamente fechou seu tronco e seu coração, e a hiena ficou lá, presa para sempre. E morta!

É por isso que o Baobá não abre mais seu imenso tronco; nem para os homens, nem para os animais. Ninguém sabe dos intermináveis tesouros que há em cada uma dessas enormes árvores.

Mas de uma coisa todo mundo ficou sabendo: desde esse dia, tudo ficou mais difícil para as hienas. Elas se viram, de repente, obrigadas a vagar pelo mundo à procura de carne. Nada do que é vivo serve, pois elas só comem carne morta.

E os baobás continuam desafiando o tempo e os homens. E os homens podem ainda escolher, se querem ser como os baobás ou como as hienas…

” Caluê, caluê dendê.

Sem boca, cantamos pra você.

Caluê, caluê dendê.

Sem voz, falamos com você.

Caluê caluê dendê,

coração sem porta

abre e ninguém vê..”

MÃE ÁFRICA: MITOS, LENDAS, FÁBULAS E CONTOS.

Autor: Celso Sisto

Editora: Paulus, 2007,

144 páginas.

 

Ilustração Celso Sisto

 

 

 

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DICA DE LEITURA: SEIS PEQUENOS CONTOS AFRICANOS (RAUL LODY)

 

CATENDÊ, O DONO DAS FOLHAS

 

SEIS PEQUENOS CONTOS AFRICANOS (RAUL LODY)

“Em todas as matas mora Catendê, um grande inquice, senhor da natureza, dono dos vegetais.

Catendê acompanha o nascimento dos frutos, toma conta das árvores e comanda o equilíbrio ecológico do mundo. Por isso Catendê combate o desmatamento e a derrubada das grandes árvores. Ele quer guardar as coisas da natureza para o homem de hoje e para as gerações futuras.

Catendê também conhece todos os usos medicinais das folhas, raízes, frutos e cascas dos vegetais. Ele atua até mesmo nos rituais religiosos, indicando as ervas que serão usadas nos terreiros.

Por tudo isso, Catendê é muito respeitado. Como guardião da natureza. vive embrenhado nas folhas, nos cipós e nas flores, viajando sempre pelas matas, domínios que ele conhece e dos quais ele cuida para o uso e a felicidade do homem.

Catendê é o dono de todas folhas que servem como remédios. Ele também é o dono das folhas que servem para os segredos da religião dos bantos. Catendê guarda todas as folhas dentro de uma cabaça. Quando alguém precisa tomar um remédio ou fazer uma obrigação religiosa, pede a folha a Catendê. O inquice tira a folha da cabaça e dá para a pessoa.

 

Ilustração de Raul Lody

Catendê- Ilustração Raul Lody

Ilustração Raul Lody

 

 

Seis pequenos contos africanos sobre a criação do mundo e do homem.

Autor: Raul Lody

Editora Pallas, 2008. 32 paginas.

 

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