Aos olhos da poetiza.. Valeria Barbosa

“No meio da linha ele estica e se apluma. Se protege do cerol que pode o seu voo podar. Se percebe tal qual aranha na teia que mesmo sem tecer o enquadra e o transforma em equilibro entre o galho, o meio em fio e o fio acima por sob a tensão. Que fazer sendo frágil em um ambiente carcerário do meio? Pedir maleme a Ossain? Gritar por Xangô para dar mais compreensão ao ser ou apenas perder o olhar no espaço tecendo uma mera observação do infinito silêncio tendo o eco do vermelho de Oyá? Voar, voar… És a solução! para não se cortar com as armadilhas criadas sem a divina preservação. A Morte e a vida próximas e tão distintas na utilidade de existir, porém, ser alvo do predador em pleno reconhecimento do espaço é a forma mais inocente de olhar o infinito para projetar a liberdade de um voo.” Valéria Barbosa.

 

Valéria minha amiga você conseguiu traduzir com seu olhar de poetiza o olhar do passarinho.. Passarinho que bem poderia ser bicho homem.. Vamos ficar ligadinhos nos ceróis e os fios da vida que tentam nos impedir de abrir nossas asas e voar.. Um grande beijo e que Iyemonjá continue iluminando os seus pensamentos, sempre!

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Ewé Ètó- Dracena Bambú (Dracaena surculosa)

 

Ewé ètó- Dracena bambú (Dracaena surculosa)

Planta africana muito bonita e extremamente ornamental, conhecida como dracena bambú e de nome científico Dracaena surculosa. Pertence a mesma família do nosso perégún (Dracaena fragans), ou seja, é uma Liliaceae. Nas casas de Candomblé é chamada por ètó. Folha ligada ao Senhor da Justiça, sua utilização nos garante vida longa e nos afasta das armadilhas de Ikú (a morte). Ètó nos traz saúde e vida próspera. Guardo sempre uma muda junto comigo.. Que o fogo de Sàngó possa arder sempre em nossos corações, aquecendo nossa vida e nos resguardando do frio de Ikú!

Ètó ó ní kí n’tó l’áyé

Èlà ó ní kí n’là sí ayé

Awáyémákùú kì í tètè kú

Òyèkú ìwòrì wá so mí di arúgbó.


Etó diz que eu devo continuar muito tempo na Terra.

Elá diz que eu devo ficar mais rico na Terra.

Awáyémákùú nunca morre cedo.

Òyèkú ìwòrì, venha e me faça chegar à velhice.

Asé! Asé! Asé!

 

TEXTO ESCRITO POR  JONATAS GUNFAREMIM

 

Folha de Xangô- Senhor do Fogo da Vida

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Folhas e Transe

 

Cipó douradinho (Banisteriopsis caapi)

Dentro dos cultos afrobrasileiros muitas vezes existe a necessidade de incorporação de determinados iniciados, mas isso não quer dizer de todos. No Candomblé, chamamos de Ogan e Ekeji os homens e mulheres, respectivamente, que não entram em estado de transe. É fato também que para que um orixá incorpore em seu filho existem algumas prerrogativas a serem cumpridas.. A primeira, a meu ver, é o orixá realmente querer. Digo isso porque muita gente entra em uma casa de Candomblé (e Umbanda), fica encantada com tudo, pois o xire (festa) realmente representa um dos encantos do orixá, e é nesse momento que essa pessoa deseja fazer parte daquela comunidade. Só que nós, seres humanos, somos meio imediatistas e achamos que assim que colocarmos uma roupa branca e entrarmos em uma roda para dançarmos pros orixás eles irão ao nosso encontro e o transe acontecerá.. Aí que às vezes mora o perigo, pois ficar encantado somente com a beleza das danças e cânticos não é suficiente, a meu ver..

Chacrona (Psychotria viridis)

Nossa relação com os orixás acontece ao longo de nossa vida, no nosso dia dia, nos sinais que eles nos dão o tempo todo. Porém, dentro da nossa Tradição, essa relação só vai ser plenamente estabelecida após a iniciação.. Antes dessa iniciação deve-se ir a uma mesa de jogo ou a um guia espiritual (no caso da Umbanda, pois muitas vezes quem trará as respostas é um Caboclo, por exemplo). Nessa consulta o orixá revelará se a pessoa nasceu para incorporar ou não. Após essa etapa, devemos saber respeitar o TEMPO DO ORIXÁ, pois é ele que irá escolher o momento em que desejará se manifestar em seu filho, não adianta querer apressar.. Isso também não é “receita de bolo”.. Tem gente que assiste uma festa pela primeira vez e “bola”, enquanto outras ficam anos freqüentando uma casa, até que seu orixá se manifeste. Existem ainda aquelas que, após ser constatado realmente através de um jogo que necessitam passar pela iniciação, para que o orixá retire a sua consciência serão necessários rituais específicos, para “trazer” o orixá.

Nesse caso, as folhas terão um papel fundamental, embora nem sempre sejam o único caminho a ser empregado. É interessante ressaltar também que, quando falamos retirar a consciência de um médium (aumentar a concentração), não podemos esquecer que existem diferentes graus de consciência, e que o orixá, quando é de seu desejo, saberá atuar perfeitamente.. A folha a ser utilizada também vai depender de muitos fatores individuais, que determinarão que folha e qual a quantidade a ser usada.

 

Cipó douradinho (Banisteriopsis caapi)

Existe uma infinidade de folhas que possuem atividade psicotrópica, como o cipó douradinho (Banisteriopsis caapi) e a chacrona (Psychotria viridis), utilizadas no vinho das almas (Ayahuasca). Essas plantas possuem princípios químicos ativos, que agem ao nível do sistema nervoso central, alterando o nosso estado de consciência. Embora possuam essa capacidade, fora de um contexto ritual, estabelecido através do CONHECIMENTO ANCESTRAL adquirido, são apenas plantas que provocam alucinações e alterações de consciência.

Não adianta, ao meu ver, alguém afirmar que basta tomar um chá de wérénjéjé, peregún ou amúnimúyè que o orixá irá chegar.. Isso dependerá de muito aprofundamento. E esse aprofundamento só pode acontecer através da vivência, do aprendizado, com pessoas devidamente preparadas. Afirmar determinadas coisas, sem um bom conhecimento de causa, acho extremamente imprudente e arriscado.. Aprendi com o meu pai que uma folha pode tanto aproximar um orixá, quanto afastar.. A folha que cura também pode machucar.. As melhores respostas para as nossas perguntas serão dadas através da nossa dedicação e vivência com o sagrado. A partir de pessoas sérias que saberão nos conduzir para esse mistério maravilhoso que é o orixá..

 

TEXTO ESCRITO POR  JONATAS GUNFAREMIM

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CANTO PARA OXALÁ

Mantra sagrado, uma voz potente e com um toque xamânico..

CANTO PARA OXALÁ

Mauricio Tizumba e Trio (Feat. Fabiana Cozza)

 

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Ninguém é dono da verdade..

 

Foto minha de Cattleya harrrisoniana - Orquídea

Postei esse texto em uma comunidade em que sou moderador e achei legal colocá-lo aqui. “Gente é sempre bom ressaltar que o nome da Comunidade é : Folhas Sagradas. Ora, embora a maioria dos participantes me pareça ser adepto de religiões de matriz africana (Candomblé, Umbanda, Catimbó e outras vertentes), a sacralidade das folhas não é exclusividade desse grupo religioso.

Grupos indígenas são grandes conhecedores de ervas e seus segredos, alguém já ouviu falar do caxiri, o mocororó, a ayahuasca, a famosa jurema? São bebidas poderosas e que guardam em si a força desse povo. Se tiverem a oportunidade experimentem.. E isso não passa exatamente pelo Candomblé.. A folha utilizada, entretanto, continua sendo sagrada.

 

Na minha casa..

Povos europeus também utilizavam diversas folhas para sortilégios e encantamentos, quem já conversou com um adepto da bruxaria moderna (wicka) sabe o que estou falando. As folhas são utilizadas no culto a Deusa (e ao Deus), simbolizando o elemento terra, por exemplo. Cada folha também possui cunho sagrado.. Tem o seu simbolismo e a sua força.

Quando cruzamos as informações, observamos que muitas acabam convergindo, ou seja, a utilização para determinada erva acaba se correspondendo nas diferentes vertentes religiosas (chamamos isso egrégora). Porém isso não é regra.. Mesmo dentro do Candomblé uma folha pode ser amplamente utilizada em uma Nação (Ketu, Angola, etc) e ser kizila para outra. Eu acredito que o que deve ser entendido é que a utilização de cada folha vai depender principalmente de como as nossas energias estão sendo trabalhadas. Por exemplo, por que será que não é costume oferecer Obí (Cola acuminata) para o orixá Xango, enquanto o mesmo  não necessariamente acontecerá com o vodun Hevioso.. Quando entramos no campo das restrições e particularidades que cada orí impõem a cada um de nós então.. Dá até nó na cuca.

Todo conhecimento é importante, essa comunidade nos ensina isso a todo tempo. Toda folha também carrega a sua força, isso aprendi com meu saudoso Pai. Muitas vezes me deparei com folhas que achava que fossem mero capim e que depois pude perceber que podiam salvar uma vida. O Candomblé se formou a partir do fragmento do conhecimento de vários povos africanos, que com o passar do tempo se aglutinou e se consolidou. O povo de Efon contribuiu, assim como o de Savalu, o de Angola e outros.. Isso explica o porquê de se dizer que Candomblé não é receita de bolo..

Vamos respeitar a opinião e a dúvida de cada um dos membros da comunidade. Acho que o objetivo da comunidade não é discutir quem sabe mais ou menos, muito menos ficar divagando sobre fundamentos (awo se aprende na casa de culto). Estamos aqui para trocar idéias, informações, e a partir daí, cada um segue com o que aprendeu ao longo da sua jornada, que é única.

Embora sejamos de diferentes vertentes litúrgicas gosto muito de cantar essa cantiga, pois tem o significado de nos lembrar como é importante estarmos sempre unidos: Fará imóra Olúwo F’ará imóra Araketu ‘Wúre Fará imóra! Vamos nos abraçar, porque somos todos irmãos! Axé!

Por fim, o Senhor que caminha pelas matas, com uma só perna, nos ensina através de seus ofós que a palavra tem

Haemanthus Multiflorus (Coroa Imperial)

força. Vamos ter cuidado com a palavra que sai de nossa boca, ela sempre chegará em alguém..” Motumbá irmãos!

 

TEXTO ESCRITO POR  JONATAS GUNFAREMIM

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Assim diziam os antigos..

CANDOMBLÉ NÃO É PARA TODOS E NEM TÃO POUCO É RELIGIÃO DE IMPROVISOS.. TUDO TEM UM PORQUÊ..

Meu pequeno Ficus sp. Pequeno no tamanho, mas já me acompanha há 15 anos.

BASTA SABER ESPERAR QUE AS RESPOSTAS VIRÃO..

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Ásèsé – Origem das origens (II)

Iroko, a ancestralidade aqui faz morada (Ficus sp.)

Quando alguém é iniciado no culto aos orixás, o elo que o liga ao seu ancestral mítico (orixá) é estreitado. A memória ancestral, muitas vezes esquecida, é reavivada. O caminho (Odú) pelo qual Orí escolheu vir ao Ayé é conhecido. O indivíduo passa a ser um Omo orixá (filho de orixá), seja iyawo, ogan ou ekejí. Não está mais sozinho, faz parte de uma comunidade (Egbé), assumindo responsabilidades para com o seu orixá e também aos demais orixás e filhos da casa.

A cada ano, e a cada obrigação paga, sua relação com o seu orixá olorí (Guardião) vai ficando mais forte. Seu axé irá aumentar, seu conhecimento e suas responsabilidades dentro da comunidade também. Ao final de seu sétimo ano de iniciação (Odun Ejè), poderá se tornar um Egbomi (irmão mais velho), podendo então receber um Oye (cargo), caso seu Odú assim determine. Nessa ocasião também, caso ainda não possua, poderá possuir um igbá orí (assentamento do Orí individual). É costume se dizer que só a partir desse momento o seu processo de iniciação está concluído, daí muitas casas só montarem o igbá orí nesse momento. Nos anos que se seguem são realizadas mais duas importantes obrigações, de 14 e 21 anos, onde o iniciado reafirma os seus votos para com o seu orixá e também com a comunidade ao qual está inserido.

Observamos que durante a vida religiosa, o iniciado é levado por meio de diversos rituais, a reiterar os laços que o ligam não só ao seu orixá, mas também a comunidade que o acolheu. Celebra-se a vida que se individualizou e também a vida que se integrou aos demais. Quando um iniciado morre, esses elos têm de ser desfeitos. O indivíduo passa de vivo (ara ayé) para morto (ara orún).

Àràbà/ Igi Olorún/ Gédé Hunsu (Ceiba pentandra)

O conjunto de rituais que são realizados com a finalidade de restituir o equilíbrio entre os ara aye e os ara orun é conhecido nas casas de tradição Ioruba pela denominação de Ásèsé (Àjèjè). Em outras nações esse ritual costuma receber outros nomes, como Sihun/Zerim (Jeje) e Mukundu/Ntambi (Bantu). É interessante frizar que os termos Sihun e Zerim, na língua fon, se referem também a instrumentos utilizados em substituição aos atabaques nos rituais funerários.

Embora muitos desconheçam, o Ásèsé é uma cerimônia obrigatória para todo aquele que se iniciou, independente do cargo que ocupava (iyawo, ogan, ekeji ou sacerdote). No processo de iniciação se criam e fortalecem os vínculos entre o iniciado, o orixá e a comunidade, quando ocorre a morte, esses laços PRECISAM ser desfeitos. Isso é importante tanto para aquele que vai embora do mundo material como para aqueles que permaneceram neste mundo.

De forma geral podemos dizer que no Ásèsé o caminho segue o inverso do realizado na iniciação. Para melhor compreender, devemos nos lembrar dos conceitos de Emí, Orí, Orixá e Egum. Quando morremos nosso Emí não é perdido, ele retorna para o seu Criador, o sopro vital deixa o corpo material, que se torna inerte. Já nosso Orí, carregando o nosso “destino” se desintegra, pois é único. Ninguém poderá herdar o Orí de outro, motivo pelo qual o igbá orí deverá ser desfeito. O orixá para o qual fomos iniciados, irá retornar para a Natureza, da qual é uma pequena parte. Caso seja de sua vontade, poderá continuar sendo adorado e retornar mais tarde, através de um novo nascimento. Nesses casos poderá até trazer um nome que o identifique, como Babá (Iyá) Túndé (o Pai/Mãe voltou). Esse orukó (nome) pode se estendido não apenas para o orixá que retorna, mas também para o filho desse orixá. Esse princípio, que se assemelha em parte com o conceito de reencarnação, é denominado pelos Iorubá como Àtúnwa (aquele que retorna). Entretanto, embora sejam conceitos semelhantes, diferem em diversos aspectos. Não podemos esquecer que a reencarnação pressupõe o retorno ao mundo de uma alma/espírito indivisível, enquanto na visão africana esse princípio gerador da vida é bem mais complexo.

Quando a vida deixa o corpo (ara) nosso egum também se desprende do mesmo. Esse Egúm carregará consigo, a memória do vivo, de todas as suas ações, devendo ser encaminhado de volta para o orún. Sua memória será sempre lembrada e exaltada pelos vivos, porém ele não pode continuar mais entre nós. Cabe ressaltar que existem nove oruns, dependendo de como se portou esse Egum no Aye ele será encaminhado para um dos nove orúns, podendo retornar ao aye novamente ou não. Segundo a tradição africana, um orixá pode retornar através de um novo nascimento e não necessariamente estar ligado ao retorno de um determinado Egum, ao qual ele antes estava vinculado..Para o africano, o retorno de um Egúm ao mundo dos vivos também está relacionado com o merecimento do mesmo, perante Olorún. Nossas atitudes e ações, sempre serão importantes. Embora não exista exatamente um

Ceiba pentandra (Jardim Botânico do Rio de Janeiro)

conceito de inferno Cristão, existem espaços no orun que abrigarão o Egum que não soube conduzir os seus passos, a exemplo do Òrún Àpàádi e o Òrun Burúkú. Da mesma forma existem espaços de paz e alegria como o Òrun Reree o Òrun Àlàáfíà.

Podemos concluir daí que, o Ásèsé não é um privilégio concedido a determinado iniciado, mas sim uma etapa importante de todo aquele que passou pelo processo de iniciação, seja sacerdote ou não. A realização correta desse ritual representa a possibilidade de um recomeço, de voltar a origem. Só após retornarmos a origem, perdendo a nossa existência individualizada no aye, poderemos estar preparados para recomeçarmos o ciclo da vida. Antes da vida recomeçar, cada coisa deve ser reposta em seu devido lugar. Isso me faz lembrar um itan sobre Ikú, a morte. “Quando Olòrún incumbiu Obatalá para criar o homem decidiu que o principal material a ser utilizado seria Amòn, a lama, mistura de terra e água. O Senhor do Pano Branco solicitou vários orixás para lhe trazerem Amòn. Entretanto cada vez que os mesmos se abaixavam e tentavam retirar Amòn, a terra chorava, pois estavam retirando um pedaço dela. Todos eles falharam na missão, sendo Ikú o único a retirar Amòn e entregar a Obatalá. Como recompensa, o Rei do Alá delegou a Ikú a tarefa de devolver à terra o corpo (ara) de cada homem e mulher assim que o sopro vital (Emí) retorna-se a Olòrún.” Por isso, toda vez que Emí é perdido e temos a aproximação de Ikú nosso orixá vai embora, retornando ao seu elemento fundamental. Esse itan justifica ainda a necessidade, segundo a crença Ioruba, de sermos enterrados. Amòn deve retornar para sua origem, para que possa novamente ser utilizada.. Ásèsé é exatamente isso, tornar possível uma volta à origem, sem Ásèsé não existe começo, pois o ciclo ainda não se completou..

Embora seja uma cerimônia que se estende a todo iniciado, a duração e a forma como ela irá ser conduzida difere, de acordo com o grau hierárquico, tempo de iniciação e quantidade de elos a serem desfeitos. Quanto maior seu status dentro da comunidade quando vivo, mais complexo deverá ser o ritual funerário. Infelizmente é triste observar a grande quantidade de iniciados que sequer tem a chance de terem a finalização de sua iniciação. Os motivos são diversos: desconhecimento da importância desse rito, falta de interesse em arcar com os custos (que costumam ser altos) e até mesmo por achar que o iniciado não era merecedor (??).

Folha da fortuna- A vida sempre se renova..

Com relação aos custos excessivos do ritual, isso se deve, a meu ver, a uma prática puramente mercantilista e que está cada vez mais freqüente entre alguns membros das religiões de matriz africana. Hoje em dia, só tem direito a um Ásèsé aquele que está disposto, e pode, pagar. O conhecimento é vendido, ou é utilizado como moeda de troca. A lei do merecimento e tempo de iniciação pouco importa. Uma das conseqüências disso é que, a visão deixada pelos nossos ancestrais, de comunidade, é cada vez mais suplantada pelos desejos individuais. A Tradição não dita mais as regras, cada qual segue suas próprias regras, de acordo com seus interesses momentâneos. Dessa forma a essência vai se perdendo, a memória vai ficando esquecida. Ora, sem memória, não existiria o Candomblé, uma vez que ele está enraizado no conceito de ancestralidade. Quando enfraquecemos a Tradição, estamos enfraquecendo a memória de nossos ancestrais, fazendo com que nossas origens sejam esquecidas. O Ásèsé nos ensina, se não podermos retornar a nossas origens, como poderemos sustentar nossa religião?

 

Dedico este texto a memória de meu Pai: José Flávio Pessoa de Barros (Pai Flávio).

Babá mimá sùn o –Meu pai, não durma, vigie todos os seus filhos!

 

Ásèsé, mo juba ; Ásèsé, Ásèsé o!;

Ásèsé o ku Agbà o!; Ásèsé , Ásèsé o!;

Ásèsé , érù ku Àgbà o!; Ásèsé , Ásèsé o!

 

Axexé eu lhe apresento meus humildes respeitos!;

Axexé eu venero e saúdo os mais antigos,

Axexé o escravo saúda os mais antigos.

 

IGÌ ÒPÈ (Ewé Marìwo )- Elaeis guineensis

Ò dúró ó Ìkú àiyé

Ò dúró Ìkú àiyé

Ìkú l’opa a àlà bàbá

Ìkú kò m’a kékeré

Ò dúró Ìkú àiyé

 

LEITURA INDICADA:

*Faraimará – o caçador traz alegria. Organização: Raul Lody e Cléo Martins.  Editora Pallas. ISBN: 85-347-0201-2

*Os Nago e a Morte. Autor: Juana Elbein dos Santos. Editora Vozes. ISBN-13: 9788532609236

*Àsèsé, o Reinício da vida. Altair Bento de Oliveira. togun@altair.togun.nom.br

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Ásèsé – Origem das origens (I)

“Se Ikú não chegar, adoremos Oxum

Se Ikú não chegar, adoremos Orixá

Se ikú realmente chegar, não adianta Ikú receber sacrifício”

Mawá, Mawá, Mawá

Vodunci ilé Mawá

Vodunci ilá Mawá

Lése Korré zó

 

Rio Macacú- Cachoeiras de Macacú (RJ)

Na religião dos orixás, inkicies e voduns ser iniciado significa acordar nossa memória ancestral esquecida e restabelecer os elos que nos trouxeram para esse mundo (Aye). É nesse momento que costumamos dizer que “nascemos” dentro da Religião. Esse nascimento marca outra forma de encarar e nos relacionar com o mundo que nos cerca, pois passamos a reconhecer não apenas a entidade mítica que nos confere individualidade (orí), como também aquela que herdamos de nossos ancestrais (orixá).

 

E fibò erù máa lo

Ìkú bá lè

Bá lè yìí bèrù

E fíbò èrù máa lo

Ìkú bá lè, a f’orí bá lè ó

Dentro da tradição Ketú, acredita-se que quando alguém vem ao mundo trás consigo quatro elementos vitais: emí, orí, orixá e egun. O emí é o sopro vital dado pelo Criador (Olorún), sem ele não existiria vida. Já orí representa nossa cabeça espiritual, moldada por Babá Ajalá, no Orún. Antes de nascermos no aye (Terra), nosso orí caminha muito, antes de aqui chegar. Esse caminho, escolhido por orí, nunca é esquecido e vai definir o que chamamos por Odú. Cada orí, portanto irá ter o seu próprio caminho, seu próprio odú. Durante essa viagem nosso Orí “aprende” a gostar de algumas coisas e também a se desagradar com outras. Cabe ressaltar que a partir do momento de nosso nascimento na Terra já temos um “destino” a cumprir, nossas potencialidade e limitações já podem ser conhecidas. Não se altera o odú, o máximo que podemos fazer é amenizar as situações que nos são desfavoráveis, uma vez que Orí tentará reproduzir no Ayé tudo por que passou, antes de aqui chegar.

 

Ò Ìkú bá lè ilè yó

Ìkú bá lè

Ò Ìkú bá lé ilè yó

Ìkú bá lè

Bá lé níre Éégun

Ní s’orò hò

Ìkú bá lè ilè yó

Ìkú bá lè ara nlo

 

Pé de cabaça

O orixá representa a nossa memória ancestral, tudo que carregamos de nossos antepassados. Essa herança é transportada não apenas no campo mítico, mas também no universo físico. Esse aspecto está ligado à Natureza e seus quatro elementos primordiais: Terra, Fogo, Água e Ar. Quando os nossos corpos, mítico e físico, são montados, eles trazem um pouquinho de cada elemento, sendo que alguns aparecerão em maior quantidade. Por exemplo, um descendente de Xango, terá certamente grande quantidade de fogo na sua formação, já um filho de Obaluaye carregará consigo a presença predominante do elemento terra. O orixá nos imprime a sua marca, expressa através de nossa constituição física e nossa personalidade.

 

Ò múnra se bí l’àgbà kése egbé

Ò múnra se bí ó l’àgbà kése egbé

Ènyin wa òkú ònòn kó ihò

Ènyin wa òkú l’àgbà kó se

Ènyin wa òkú ònòn l’àgbà kóró

Ènyin wa òkú l’àgbà kú egbé

 

Durante a nossa saída do Orún nos deparamos com o nosso Odú (caminho), entretanto, é na nossa caminhada no Ayé que iremos “tentar” colocar em prática tudo o que foi visto por Orí. Tudo que fazemos e vemos aqui no Aye, fica guardado com Egum. Egum aprende a amar, e também a rejeitar, determinadas coisas e pessoas. Ele representa nosso lado mais ligado ao aspecto material da vida. Por menos tempo que uma pessoa viva seu egum sempre levará alguma lembrança daqui da Terra.

 

Ò múnra se bí l’àgbà kése egbé

Ò múnra se bí ó l’àgbà kése egbé

Ènyin wa òkú ònòn kó ihò

Ènyin wa òkú l’àgbà kó se

Ènyin wa òkú ònòn l’àgbà kojá

Ènyin wa òkú ònòn l’àgbà kú igbó

A junção desses quatro elementos poderia ser comparada com o conceito Cristão de Alma (derivado do latim anima = que é animado), sendo então o responsável por dar vida ao corpo material (ara). Por outro lado, o conceito africano consegue explicar, de forma coerente, o porquê de sermos tão diferentes uns dos outros. Embora o Emí seja o mesmo sopro divino para todos, e duas pessoas pertençam ao mesmo orixá, jamais elas possuirão o mesmo Orí e nem tão pouco o mesmo Egum. Cada ser criado é único.

Flor da cabaça

 

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JOSÉ FLÁVIO PESSOA DE BARROS

Miguel Couto

José Flávio Pessoa de Barros foi um grande pesquisador da cultura afro-brasileira. Conseguiu, através de muito trabalho e esforço, se destacar não só no meio acadêmico, como também no campo religioso. Iniciado para Oxaguian e filho da saudosa e lendária Iyalorixá Nitinha de Oxum, descendente do Ilê Asé Iyá Nassô Oká (Casa Branca do Engenho Velho) foi o fundador do Ilé Asé Omí Iwí Odara, localizado em Cachoeiras de Macacú (RJ). Nessa casa, iniciou diversos filhos no culto aos orixás. Foi professor e escritor, tendo como especialidades as áreas de Antropologia das Religiões, Religiões Afro-Brasileiras e Etnobotânica.

Na sua formação acadêmica podemos citar:

1969 – graduação em Direito, Universidade Cândido Mendes

1971 – graduação em Ciências Físicas e Biológicas, Universidade Gama Filho

1974 – especialização em Antropologia Biológica e Arqueologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro

1983 – doutorado em Antropologia, Universidade de São Paulo

1986 – pós-doutorado, Universidade de Paris.

Foi autor de diversos livros, onde merecem destaque:

*A Galinha d’Angola: Iniciação e Identidade na Cultura Afro-Brasileira. Arno Vogel, Marco Antonio da Silva Mello, Rio de Janeiro: Pallas, 1993.

*O Segredo das Folhas: Sistema de Classificação de Vegetais no Candomblé Jêje-Nagô do Brasil. Rio de Janeiro: Pallas: UERJ, 1993, 1997, ISBN 85-347-0024-9

*Ewe Orisa: Uso Litúrgico e Terapeutico de Vegetais. Bertrand Brasil, 2000, ISBN 8528607445

*Na Minha Casa: Preces aos Orixás e Ancestrais, Pallas, 2003, ISBN 8534703523

*A Fogueira de Xangô, o Orixá de Fogo, Pallas, 2005, ISBN 8534703507

*Banquete do Rei-Olubajé, Pallas, 2005, ISBN 8534703493

Ilé Asé Omí Iwí Odara - Cachoeiras de Macacú

 

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NOSSO PAI.. FLÁVIO DE OGUIAN

Nosso Pai e seus filhos

É com muita dor e tristeza que escrevo esse post. Perdemos, no dia 30 de Maio de 2011, um grande homem, que dedicou sua vida e sua obra ao legado de nossos ancestrais africanos. Seu nome: José Flávio Pessoa de Barros, ou para nós, os seus filhos, Papai Flávio. Aquele que não foi apenas um pai, mas também um grande amigo. Sempre atento e pronto a nos auxiliar. Com seu jeito tranqüilo e sempre sereno nos ensinou a amar e respeitar essa religião.

Realmente a perda é simplesmente imensa, a dor e o sentimento de solidão ainda são muito fortes e presentes. Pai Flávio foi muito além de apenas um Babalorixá, ele foi um grande conselheiro, um grande amigo. Sempre atento e cuidadoso, nada escapava ao seu olhar. Ele tinha a formidável capacidade de agregar, de dizer a coisa certa no momento exato. Muitas vezes me senti perdido e sem ter noção de como me posicionar diante das dificuldades que a vida me apresentava. Nesses momentos sempre obtive dele as respostas que precisava e a certeza de estar bem amparado. E agora ele nos deixa, assim, de forma tão abrupta.. É, vai ser muito difícil superar..

Papai Flávio, agora o senhor é um essá, nosso ancestral, que continuará olhando e nos protegendo. Sua lembrança e seus ensinamentos estarão sempre no coração de cada um de nós, seus filhos e amigos.

Que Ogiyan nos cubra, Xangô nos defenda e Oxossi nos fortaleça sempre! Asé! Asé! Asé!

“Ásèsè mo juba, Ode Arolé lo bí wa”

(Origem das origens, nós lhe apresentamos nosso humilde respeito).

Sua cadeira, aos pés de Idanko..

Peço a Ikú, e ao Senhor do Alá, que nos permita ter o tempo necessário para que possamos fazer crescer as sementes que nosso pai plantou nos corações de cada um de nós. Que esse tempo seja longo, e que essas sementes possam gerar árvores fortes, com raízes profundas e com frutos sadios. Asé!

 

Ìkú són a lè

Níbi Bàbá Alápáàlà.

Ìkú don ohun bàbá

Ó kí s’àlà ojú wa

Ní ìfé agà to ní gbè

Osó Ìkú a fó a wé to

Ìkú á lè, ìkú á lè, Ìkú àjò!

Morte, fique amarrada na terra

Aqui, Pai que tem o àlà (o pano branco) ao seu lado

Contra feitiços, a Morte e outras coisas.

Pai, ponha o àlà e o olhar sobre nós.

Tenha amor e que estejamos aptos à proteção

Contra os feitiços da Morte, eleve-nos e envolva-nos bastante.

Morte na terra, Morte na terra, Morte viaje (vá embora)!

Pai Flávio e Vó Nitinha, momento inesquecível em Miguel Couto

 

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Awùrépépé (Spilanthes acmella – Jambú/treme treme)

Jambú (Blainvillea acmella) - Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Hoje vou falar sobre uma folha muito importante dentro do culto aos orixás, o jambú. Nas casas de Candomblé Ketú recebe os nomes de awùrépépé, éurépepe ou ainda oripépe. Pela sua importância é tida como uma planta de oro, ou seja, de fundamento. Folha ligada aos mistérios da Deusa da Fertilidade, Oxum. Às vezes é confundida com o bánjókó (Acmella brasiliensis), erva também consagrada a Senhora dos Rios. Suas flores são consagradas a Exú, orixá da procriação, aquele que promove as uniões. O jambú costuma crescer em regiões úmidas, estando também, de certa forma, associado a Oxalá, o Senhor da Criação. Quando observamos esses três aspectos ligados a essa planta (Fertilidade/Procriação/Criação) conseguimos entender porque ela é tão importante no processo de iniciação de um iyawo. Oxum é o grande útero que povoa o mundo. Exú é aquele que faz o possível (e o impossível) para que esse útero seja fecundado, cabendo a Oxalá permitir que possamos ser criados no mundo espiritual (orun) e assumir o nosso papel no ayé (mundo dos vivos). Podemos dizer que essa folha carrega em si essa força, que permitirá o nascimento do iyawo dentro do culto aos orixás.

Jambú (Blainvillea acmella) - Jardim Botânico do Rio de Janeiro

O jambú é uma planta tipicamente brasileira, sendo conhecido por vários nomes dentro da cultura popular: abecedária, agrião-bravo, agrião-do-brasil, agrião-do-norte, agrião-do-pará, botão-de-ouro, erva-maluca, jabuaçú, jaburama, jambu-açú, jamaburana, mastruço, nhambu. Dentro do mundo científico são conhecidas diversas espécies que recebem a denominação de jambú, as principais são: Spilanthes acmella e Blainvillea acmella. Dentro da medicina popular costuma ser utilizada para diversos fins, como: antifúngico, anti-séptico, antibacteriano, anestésico, antigripal. É comum entre alguns povos da Amazônia a mastigação das folhas e flores do jambú para aliviar dores nos dentes.

É interessante notar que esse conhecimento, acumulado principalmente pelas populações tradicionais como ribeirinhos, grupos indígenas e quilombolas, vem sendo comprovado por diversos estudos científicos. Alguns desses estudos indicam a presença de alcalóides com propriedades inseticidas, podendo ser utilizados no combate do Aedes aegypti. Um dos principais compostos químicos presentes no jambú é o espilantol. Infelizmente para nós, brasileiros, essa substância (espilantol) já foi patenteada por Norte Americanos e Europeus. Com isso, se quisermos produzir e comercializar remédios e cosméticos a base do nosso jambú teremos que pedir permissão e pagar a esses países. Por exemplo, já existem laboratórios estrangeiros trabalhando na produção de cosméticos anti-rugas a base de espilantol. Esse produto seria aplicado na musculatura subcutânea do rosto, inibindo as contrações musculares de forma muito semelhante ao botox. Porém teria a vantagem de apresentar um grau de toxicidade menor. É realmente uma situação lastimável, principalmente se lembrarmos que o conhecimento para se chegar a esse cosmético provavelmente veio de nossas comunidades tradicionais.. Quando iremos acordar hein?

Bánjókó (Acmella brasiliensis)

Dentro da culinária da Amazônia e do Pará essa folha é muito apreciada, servindo como base para diversos pratos, como o pato no tucupi e o tacacá. Ambos são herança de nossos povos indígenas. O tucupi é um caldo retirado da raiz de mandioca brava, e que leva horas para ficar pronto, tempo necessário para que perca todo o ácido cianídrico, extremamente tóxico. Já o tacacá é um prato composto com o tucupi bem quente e misturado com farinha de tapioca, camarão e folhas de jambú. Quando se come essa iguaria é normal que a língua fique dormente e os lábios comecem a tremer, fato que justifica o outro nome dessa folha “treme treme”.

Outro fato interessante em relação a esse ewé é a sua utilização em pomadas para aumentar a libido feminina, servindo

Spilanthes acmella (Jambú)

assim como estimulante sexual para mulheres. Essa ação se daria principalmente através do aumento da contração (peristaltismo) da região genital feminina.

Um estudo realizado pela Universidade Federal do Ceará constatou que a pomada de jambú utilizada em um grupo de homens e mulheres conseguiu aumentar significativamente o desejo sexual e a excitação feminina, assim como o desejo e a satisfação sexual masculina durante a atividade sexual. Mais um fato que comprova que nossos mais velhos sabiam muito bem o porquê da sua utilização.

Vocês se recordam do início do texto? Exú/ Oxum/Oxalá (Procriação/Fertilização/Criação)..

Embora muitos considerem essa folha como eró (que apazigua) o awùrépépé também pode ser considerada uma folha gún (que acorda, desperta). Folha poderosa, que cantamos na sassayin:

Ti éwerépepe

Omi pére pe

Éwerépepe

Okò ni pere pe

Éwerépepe

Omi pére pe

Éwerépepe

Ewerepepe

Água na dosagem certa

Eurepepe

Você não tem na dose certa

Eurepepe

Água na dose certa

Você não tem na dose certa

Ou ainda:

Awùrépépé pèlépèlé beó

Awùrépépé

Aurepepe sensatamente nos abençoe

E também:

Òsányìn Aláwo wa

Sawùrépépé orisá ewé

Òsányìn, Guardião de nosso culto

Suplicamos sua benção, orixá das folhas

Spilanthes acmella (Jambú)

SAIBA MAIS:

Efeito do jambu (acmella oleracea) sobre a função sexual masculina e Feminina

Mestrando: Rommel Prata Regadas

Jambú amazonense agora é patene americana

Blog: Jornal Repórter

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FESTA DE SARA KALI, NA FRANÇA

Santa Sara Kali

O TEXTO A SEGUIR FOI RETIRADO DO SITE ARCANO MAIOR: Notem que, mesmo entre os ciganos a prática da incorporação também existe, sendo, de certa forma, aceita.

“Sua imagem é coberta de lenços, sendo ela uma protetora da maternidade. Mulheres (romi) que não conseguem engravidar e mulheres que pedem por um bom parto, ao terem seus pedidos atendidos, depositam aos seus pés um lenço (diklô). Centenas de lenços se acumulam aos seus pés.

A imagem de Santa Sara Kali

O corpo da estátua é coberto por inúmeros mantos e jóias em sinal de devoção, respeito e veneração. Sobre eles, vê-se apenas o rosto de uma beleza juvenil. A expressão dos traços é de grande delicadeza.

Um receptáculo de madeira, que recebe os pedidos e as preces escritas dos fiéis, é a principal testemunha do fervor e da devoção que os ciganos têm por sua padroeira.

A imagem, desgastada pelo tempo, tem sempre a face exibindo falhas na pintura. Isso acontece porque os ciganos abraçam e beijam Sara.

O calor da cripta que abriga a imagem é intenso, devido ao enorme número de velas que queimam ali e o que acontece lá é emocionante. Alguns depositam cartas e oferendas num receptáculo de madeira, outros deixam objetos como muletas; outros, abraçados à imagem como se tivessem reencontrado alguém muito querido, choram copiosamente entre murmúrios quase incompreensíveis. Há aqueles que motivados pela fé, conversam com Santa Sara, fazem pedidos, enchem de beijos o rosto da imagem.

Na vigília de 24 de maio, é comum ver ciganos em transe. Manifestam-se as entidades dos antepassados, mesmo dentro de uma igreja católica.

No Brasil cada vez mais Santa Sara é cultuada. Dificilmente a Santa é encontrada

Santa Sara Kali- A Virgem Negra

em igrejas, mas há um número de imagens espalhadas em grutas, praças, pequenas capelas, centros e comércio em geral, uma vez que a Sara caiu nas graças populares.

Peregrinação do Mês de Maio

Na manhã do dia 24 de maio é celebrada uma missa de abertura das peregrinações. Saintes-Maries-de-La-Mer (França) se torna verdadeiramente a terra dos ciganos, a beleza das carroças antigas, decoradas com belas pinturas e amuletos, os fabulosos traillers, o colorido das roupas… tudo ritimado por rezas, cantos, danças e o som dos instrumentos ciganos mais populares: címbalos, guitarras, acordeóns e violinos.

Após o meio dia acontece a descida dos relicários das Santas Marias, depois vem o momento tão esperado. Sara é carregada por quatro ciganos e é levada até o mar. As mãos tentam alcançar os mantos, levantam-se crianças, pedindo para elas a proteção de Santa Sara.

Os ciganos cantam, rezam e aclamam a sua padroeira, gritando “Viva Santa Sara”. Sara é, assim, escoltada até o mar mediterrâneo, onde, segundo a história, desembarcou com os santos amigos de Jesus. Depois, lentamente e sempre debaixo de aclamações, Sara é devolvida à cripta.”

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DIA 24 DE MAIO – DIA DE SANTA SARA KALI

Nos dias 24 e 25 de maio, centenas de ciganos de todo o mundo festejam o dia de Santa Sara Kali, a Virgem Negra. Os leitores desse blog podem estar se perguntando. O que essa Santa e os ciganos têm haver com as religiões de matriz africana e com o culto as folhas? A primeira vista e com um olhar desatento, poderíamos supor que não haveria qualquer tipo de relação.

Entretanto devemos nos lembrar que a cultura dos povos ciganos está fundamentada em práticas religiosas muito antigas, onde a relação entre o homem e a Natureza se fazia naturalmente. O cigano aprende, desde a mais tenra idade, a ler os sinais deixados pelos seres elementais: A chama de uma fogueira ou de uma vela, o movimento das folhas que balançam ao vento, as águas de um rio correndo e que brincam aos nossos olhos.. Essa integração com a natureza que os cerca fez com que esse povo se tornasse grande conhecedor das ervas e de seus mistérios. Assim como os povos africanos.

Não foi por acaso que algumas dessas práticas tenham sido incorporadas aos cultos de matriz africana, no caso específico a Umbanda. Nessa vertente religiosa, não só são realizados sortilégios e encantamentos, baseados na cultura desse povo, como existe ainda a possibilidade de incorporação de espíritos ciganos, que chegam trazendo alegria e ensinamentos para aqueles que os procuram. É interessante percebermos que tudo isso acontece dentro dos terreiros de Umbanda, na maior integração. Embora não seja muito comum, é possível vermos ciganas “trabalhando” ao lado de pombas-giras. Isso é fantástico, uma vez que as religiões de matriz africana possuem essa forte capacidade de agregar, reunir e redefinir.

Sou iniciado no Candomblé, porém tenho extrema devoção e adoração por esse povo, que assim como Ogún (meu Pai) está sempre a procura de novos caminhos, buscando o novo e aprendendo com o desconhecido. Por isso, e muito mais, fiz essa postagem, em homenagem a Virgem Negra, vinda das águas. Sara Kali.

SALVE SARA KALI! SALVE O POVO CIGANO!

Dica de leitura: Magia Cigana (encantamentos, ervas mágicas e advinhação)- Charles Godfrey Leland/ Editora Bertrand Brasil, 1992.

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ORIXÁS Mitologia e história contadas pela música brasileira

Esta série de 12 programas de rádio busca desvelar o universo das crenças, mitos e conceitos das religiões brasileiras de matriz africana ao mesmo tempo em que as relaciona com a diversidade da música brasileira. Através de lendas, relatos, toques e cantigas, o entedimento de mundo contido na religiosidade afro-brasileira apresenta-se como um conhecimento oral e colaborativo, construído por sucessivas gerações e por uma diversidade de vozes e influências. O rádio é, portanto, um meio ideal para que esta oralidade se multiplique. A música, elemento fundamental, seja nos rituais por sua dimensão sagrada, ou como síntese das influências culturais no cancioneiro popular, é o elemento que une as práticas religiosas ao cotidiano, contextualizando para os ouvintes versos tão conhecidos e servindo de ponte para um entendimento maior da influência da cultura africana no Brasil. Cada episódio é focado em um orixá específico, suas especificidades, histórias e mitos, que se desdobram em questões fundamentais para esta cultura. Seria impossível que esta série buscasse dar conta da imensa diversidade contida nos universos de matriz africana, de suas diferentes nações, de suas diferentes influências regionais que no Brasil enriqueceram-se umas as outras. Por isso, cada programa se propõe a oferecer um despretensioso retrato sonoro dessas imponentes personagens já tão enraizadas na cultura e na música brasileira.

http://orixas.hotglue.me/

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CORAL IYUN ASÉ ORIN- OFURUFU

CANTAMOS PARA O SENHOR DE NOSSOS ORIS, AR FONTE DA VIDA, AQUELE QUE NOS COBRE COM O GRANDE ALÁ. EPÁ BABÁ!!!

UFURUFU

UFURUFÚ

PARTICIPAÇÃO BAILARINO DÁRIO FIRMINO DA COMPANHIA DE ARUANDA.

VEJA TAMBÉM: IYUN ASÉ ORIN

Companhia de Aruanda

 

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