UM ANO SEM PAI FLÁVIO DE OGUIAN..

 

Babá mi, má sùn o –Meu pai, não durma, vigie todos os seus filhos!

Quando o orixá Ikú se aproxima, e abraça alguém com seu hálito frio, Ele não torna essa pessoa melhor nem pior, apenas restitui a terra o que dela saiu. Após a passagem de Ikú, seremos lembrados pelas ações que tivemos quando vivos, sejam elas boas ou más.

Por outro lado, aqueles que observam a passagem de Ikú têm a possibilidade de se modificarem. De aprender que o orgulho, a vaidade e os pequenos ressentimentos de nada nos servem, pelo contrário só nos atrasam e nos impedem de caminhar, de sermos felizes..

Aprendi no Candomblé muita coisa boa, uma delas foi o sentimento de comunidade, de espírito coletivo. Tudo que fazemos, realizamos junto com alguém, por isso aprendemos a contar sempre com o outro. Ninguém toca um Candomblé sozinho. Quando nascemos, somos cortejados pelos nossos mais velhos, que nos ajudam a caminhar e alegremente cantam: Ikodidé, adupé ìyawó. Ofé re jé! Momento único nas nossas vidas.

Aprendi que, assim como, quando nascemos não estamos sozinhos, quando partimos também não ficamos solitários. Um iniciado nunca será apenas mais um, um número frio e sem valor. Ele pertence a uma comunidade, a comunidade o acolheu e ele a escolheu. Por isso a comunidade estará presente no momento em que o ará retornar para a terra. Não é uma questão pessoal, mas espiritual.

 

PAI FLÁVIO DE OGUIAN

Aprendi que todo aquele que recebeu o “awo”, deverá ter o direito de retornar as suas origens, de romper os laços que o ligam a comunidade e assim poder seguir o seu caminho..
Também aprendi que o elo que nos une é muito maior do que podemos imaginar. O elo espiritual, forjado pelos orixás, materializado em todos os dias de nossas vidas. É nessa força que aprendi a acreditar e respeitar.
Aprendi a acreditar na Tradição. Que quando ela não mais ditar as regras, quando cada qual seguir seus interesses momentâneos, a essência terá se perdido, a memória será esquecida.

Aprendi que quando enfraquecemos a Tradição, estamos enfraquecendo a memória de nossos ancestrais, fazendo com que nossas origens sejam esquecidas. O Ásèsé nos ensina, se não pudermos retornar a nossas origens, como poderemos sustentar nossa religião?

 

TEXTO ESCRITO POR JONATAS GUNFAREMIM

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Ewé Dan- Jibóia (Epipremnum pinnatum)

Epipremnum aureum (Folha jovem)

A Jibóia (Epipremnum pinnatum) é uma planta semi-herbácea e de hábito trepador (epífita), pertence à família das Aráceas, onde encontramos os antúrios, as costelas de adão e os filodendros. Suas folhas nascem pequenas, brilhantes e sem recortes, conforme a planta vai se alastrando e chega próxima a um suporte em que possa se sustentar, suas folhas crescem e tornam-se recortadas, lembrando muitas vezes a costela-de adão (Monstera deliciosa).

Quando cultivadas dentro de casa, não chegam a atingir 2 metros, porém na natureza podem ultrapassar os 20 metros de altura. Suas folhas nesse caso podem alcançar quase 1 metro de largura.

De acordo com o dicionário tupi, a palavra “mbóia” ou “mboy” designa cobra, e “y” seria água, em uma pronúncia gutural difícil de ser grafada. O nome jibóia tem origem indígena e significa literalmente “cobra d’água”.

 

Epipremnum aureum (Folha crescendo em tronco de árvore)

Segundo uma lenda indígena, a Jibóia Branca guardava o segredo do conhecimento, mistério e ciência da floresta encantada. Conta-se que um guerreiro procurando por caça acabou encontrando um encantado, a Jibóia Branca, que morava no lago grande. e se transformava em mulher, ia para a terra e depois voltava para o lago. A partir desse encontro, o guerreiro se apaixonou e pediu ela em casamento. O guerreiro e a Jibóia tiveram uma vida muito boa, tendo acesso ao conhecimento e aprendizado no mundo espiritual. Nesse lago grande, na comunidade da Jibóia Branca, viviam muitos encantados. Todos eles conheciam o segredo das plantas do poder, entre elas o cipó ayahuasca (nixi pae) e a folha kawa. E foi dessa maneira que a utilização dessas plantas ficou conhecida entre os povos da mata.

 

A jibóia é considerada uma planta encantada, principalmente entre os povos do Norte e Nordeste do país. Dizem que ela seria uma excelente planta para proteção, quando cultivada em casa protegeria os moradores contra energias e pessoas negativas. Alguns acreditam que, quando uma jibóia é cultivada onde há uma mulher solteira, a planta é capaz de atrasar ou atrapalhar um futuro casamento, pois afasta possíveis pretendentes. Outra crença é que ela não deve ser cultivada dentro d’água em casa, pois atrairia fofoca, ejó, segunda a língua do povo de santo.

 

Segundo o Feng Shui, não se deve deixar que ela se enrole dentro do vaso, e sim que ela suba pela parede. Nesse caso sua indicação seria para harmonização dos ambientes e favorecimento do crescimento profissional, utilizada nos ambientes fechados como escritórios e salas de reuniões.

A jibóia encontra-se na lista divulgada pela NASA das plantas de interior campeãs na filtragem do ar. Essas plantas agiriam não só reciclando o dióxido de carbono (CO2) e liberando oxigênio, mas também retirando diversos poluentes do ar, como os gases formaldeídos, utilizados na fabricação de corantes e vidros.

 

Filodendro e Costela-de-adão

Embora possua diversos aspectos positivos, devesse ter atenção redobrada com relação a essa planta, principalmente em ambientes com crianças e animais domésticos, pois como outros representantes de sua família (comigo-ninguém-pode e o filodendro, por exemplo) acumulam cristais de oxalato de cálcio em seus tecidos, tornando-se tóxicas quando mastigadas ou ingeridas. Esses cristais podem afetar a orofaringe, causando irritação oral e inchaço das mucosas do trato gastrointestinal. Talvez esse seja um dos motivos pelo qual a jibóia também é conhecida como era-do-diabo..

 

Nas casas de Candomblé a jibóia é tida como uma ewé apa òsí, estando ligada tanto ao elemento água como a terra, embora também transite pelo ar. Em seu nome ioruba também trás alusão a cobra mítica, ewé dan, folha da serpente. Costuma ser empregada com certa freqüência em alguma casas de Jeje, nos processos de iniciação e em baixo das esteiras (enim/zocré) do vodunsi. Essa folha é consagrada ao orixá Oxumare.

 

Oxumare. By Patrick de Ayrá

Oxumarê é o grande orixá da transformação, do movimento e das mudanças. Nas casas de tradição Jeje é conhecido pelo nome de Bessem, Dambará ou simplesmente Dan, o que justifica seus filhos serem chamados dansí. Dan é o vodun senhor de tudo que é sinuoso e curvo. As trepadeiras estão sob a sua guarda.

 

Oxumare. Arte de Patrick de Ayrá

Recordo-me com saudades de sempre que recebíamos a visita de Pai Waldir de Oxumare ele puxava essa cantiga durante a Sassaiyn:

 

 

Ewe dandan Dara ma da o

Ewe dandan Dara ma da

Ewe da orun Baba da orun

Ewe dandan Dara ma da ò

 

 

TEXTO ESCRITO POR JONATAS GUNFAREMIM

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A NAÇÃO JEJE (O POVO DE DAN)

A Nação Jêje, em especial a Mahi, é considerada fechada e cercada de muitos mistérios sendo que pouco se costuma publicar a respeito. Essa talvez fosse uma das razões pela qual se costumava dizer que a mesma estivesse praticamente extinta, entretanto de alguns anos para cá ela vem ressurgindo e mostrando a todos a força do “Povo de Dan”. Infelizmente, apesar do crescimento de casas dessa linhagem também é crescente a descaracterização da mesma, já que devido a falta de conhecimento as pessoas não estão seguindo os preceitos impostos pela Nação.

 

Ile Asé Osumare (Bahia) /Nago-vodun

Dentro do culto são seguidos várias proibições (trefú= ewó) da Nação como, por exemplo, nunca pronunciar o nome dos voduns perto do fogo ou lixo, jamais comer ou utilizar a carne do carneiro, até o seu nome deve ser evitado usando-se o termo “lanzudo”.

Na Nação Jeje, observamos não só uma ritualística própria, mas também toda uma terminologia característica, que em alguns casos pode variar de acordo com o Asé ao qual a casa descende. Dentre os principais rituais praticados podemos citar: o Pole, o Tó, o Zandró, o Sanjebe, o Kuhan, o Gboitá, o Zô e o Sarapokan (Sapokan). É costume entre os antigos dizer que alguém só pode ser considerado realmente um vodunci se tiver recebido o Hungbe, ou seja, tenha passado por todos os rituais necessários para uma verdadeira iniciação no culto aos voduns. É interessante observar que muitos desses rituais tiveram que sofrer adaptações, devido à proximidade com o meio urbano. Outros, como o ritual de Gra (ou Grau) apresentam-se em quase extinção.

 

Roça do Ventura: Da esquerda para a direita, ogã Boboso (Ambrósio Bispo Conceição), vodunsi Alda dos Santos Menezes da Silva, ogã Bernardino Pereira dos Santos e a vodunsi Alaide Augusta da Conceição. Foto: MARCO AURÉLIO MARTINS

Alguns cargos empregados são:
*Doté/ Doné – Respectivamente Babalorisá e Iyalorisá. Quando o termo usado for Tochê ou Nochê os respectivos significados são “meu pai” ou “minha mãe”. Também é comum aos filhos responderem ao Doté ou Doné por Dê, que significa senhor, meu Pai. Esses termos são utilizados por filhos dos voduns Kaviuno. Quando o vodun do filho pertencer à família de Dan esse deverá chamar o sacerdote por Mejitó, da mesma forma os filhos de divindades nagô-vodun chamarão seu iniciador por Gayaku.
*Huntó/ Runtó – É o encarregado de chefiar todos os demais tocadores de atabaque. Na verdade o Huntó é um cargo equivalente ao de Ogan, podendo existir outros, como Pejigan, Gaimpe e Abajigan.
* Vodunciponcilê – Cargo semelhante ao de Ekéji.
*Hosegan/ Gonzengan – Semelhante à Vodunciponcilê porém sua principal função é cuidar das quartinhas (gonzen) e eventualmente dos Gra. Em determinadas linhagens dessa nação são realizados orôs especiais com a finalidade de se invocar os Gra, que antecedem o processo de feitura. São considerados uma forma de espírito selvagem, que após ser concluído o processo iniciático não mais retorna.
*Hunso/Runssó – Mulher encarregada da cozinha do barracão.
*Dere- É a mulher encarregada de cuidar da vodunci durante sua iniciação, seria sua mãe pequena.
*Adagan – Escolhida entre as filhas de santo mais antigas da casa, que por sua experiência é encarregada de algumas cerimônias e rituais importantes como cuidar de Legba, é um cargo exclusivo para mulheres exigindo também grande responsabilidade. Cabe ressaltar a importância deste cargo, uma vez que em muitos axés cuidar de Exú é tarefa restrita aos homens.
*Sidagan- É também uma filha de santo antiga, sendo a sua função auxiliar a Dagan. Esses dois cargos são de tamanha importância, pois cabe a Sidagan recitar o ajebé, cantiga secreta que quando entoada pode salvar uma pessoa da morte ou restabelecer a saúde de alguém muito doente.
*Adogan – É o filho de santo (homem) encarregado de cuidar da roça, ou seja da área aonde estão plantadas as árvores sagradas do terreiro.
*Vodunsi – O termo significa esposa do vodun e é equivalente á iyawô.
*Etemi- Vodunci iniciada para nagô-vodun e que já tenha mais de 7 anos de iniciação.
*Hurete/Arruretê – Pessoa que ainda não passou pelo ritual de iniciação, Abian.
Ainda observamos o termo Humbono, que é dado ao primeiro filho de santo iniciado pelo zelador, cabendo a ele o direito de substituí-lo após o seu falecimento, até que seja escolhido o seu sucessor.

 

Oxumare, a cobra arco-íris

Em casas dessa linhagem os voduns costumam ficar em um altar chamado pandôme que se localiza no interior do sabaji, quarto sagrado aonde estão os assentamentos dos voduns, sendo que em algumas vezes é reservado apenas para os voduns do chefe do kwe ou rumpame (casa de culto). Ao contrário do ritual Alaketú não vamos observar a presença do isé ou poste central, no centro do barracão costuma ficar apenas um grande porrão contendo muitas moedas. Dentro da tradição jeje a maioria dos voduns está associado a uma árvore, chamadas Atin, sendo Atinsá seus galhos. Daí vem o costume de se chamar os voduns assentados fora do interior do barracão (no tempo) de Atin, mesmo que no espaço do terreiro não haja árvores.

Bessem/ Akóro Bessem é o vodun chefe de toda nação Jeje, senhor da riqueza e da sabedoria, quem trás harmonia ao mundo. É o próprio arco-íris, a grande idan (cobra) que desce à Terra para beber água e nos traz a fartura através da chuva que fertiliza o chão.

 

Piton Africana (Python Regius)

TEXTO ESCRITO POR  JONATAS GUNFAREMIM

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Amúnimúyè (Centratherum punctatum)Balainho-de-velho, perpétua-roxa, perpétua-do-mato

Conta a lenda que “Oxóssi, o grande caçador e rei da nação Ketu, foi avisado do perigo que corria ao percorrer todos os dias os domínios de Ossain. Este orixá, dono das “folhas” costumava prender junto a si aqueles que se aventuravam em suas matas. Certo dia, deu-se o encontro e Oxóssi bebeu da poção que Ossain lhe ofereceu, permanecendo junto a ele sem consciência de quem era, esquecendo sua família e seus afazeres. Havia tomado amúnimúyè, a “folha do esquecimento” ou “a que tira a consciência”” (PESSOA DE BARROS, 1994).

 

 

 

Balainho de velho (amúnimúyè)

A folha que nos referimos é conhecida nas casas de Candomblé como amúnimúyè, que significa “aquela que se apossa de uma pessoa e de sua inteligência”. Devido a suas propriedades mágicas é considerada importantíssima nos rituais de iniciação, onde, associada a outros componentes, irá facilitar o transe e permitir que o orixá se aproxime de seu filho. Embora esteja ligada ao transe, é considerada uma folha eró e não gún. Seu principal aspecto é masculino e seu elemento é o ar.

 

No Brasil o amúnimúyè é também conhecido pelos nomes balainho-de-velho, perpétua-roxa ou perpétua-do-mato. Em terras tupiniquins, a espécie original (Senecio abyssinicus) foi substituída pelo Centratherum punctatum, ambas pertencentes à família botânica Compositae, segundo nos informa Eduardo Abiodun.

 

Centratherum punctatum (Jardim Botânico do Rio de Janeiro)

Estudos das folhas de balainho-de-velho, baseados em análises fitoquímicas, revelaram a presença de, pelo menos 49 componentes, entre flavonóides, taninos e glicosídeos, dos quais os flavonóides apresentaram comprovada atividade antibacteriana. Outras substâncias abundantes nesses extratos vegetais foram os sesquiterpenos, presentes em diversos óleos essenciais. Além da ação antimicrobiana, o extrato de balainho-de-velho também apresentaria propriedades antioxidantes.

 

Senecio abyssinicus

Um fato interessante dessa planta é que ela se destaca como uma das principais flores visitadas pelas abelhas da espécie Apis mellifera, sendo excelente fornecedora de néctar, ajudando assim no aumento da produção de mel. Segundo é bem conhecido por todos no Candomblé, o mel é uma das principais kizilas (ewó/interdito) de Oxóssi.. Dizem que quando ele come mel, fica completamente perdido, sendo facilmente dominado.. Igual a Barú quando come ilá (quiabo).. Lembram da lenda que contamos? Ossain não era bobo e sempre carregava amúnimúyè em sua grande cabaça (igbá) do mistério.

 

 

 

SAIBA MAIS LENDO:

PESSOA DE BARROS, J. F. . Aspectos Simbólicos da Possessão Afro-Americana. In: Maria Teresa Toríbio Brittes Lemos; José Flávio Pessoa de Barros. (Org.). Reflexões sobre José Marti. Rio de Janeiro: PROEALC / CCS / UERJ, 1994, v. 1, p. 25-38.

Composition of the Leaf Oil of Centratherum punctatum Cass. Growing in Nigeria. ISIAKA A. OGUNWANDE ET AL.

Journal of Essential Oil Research/497 Vol. 17, September/October 2005.

Leaf extract of Centratherum punctatum exhibits antimicrobial, antioxidant and anti proliferative properties. NAVEEN KUMAR PAWAR & NEELAKANTAN ARUMUGAM

Asian Journal Pharm Clin Res, Vol 4, Issue 3, 2011.

TEXTO ESCRITO POR  JONATAS GUNFAREMIM

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Itan Ossanyin A cor da cultura

Esse itan faz parte da série de programas ” A cor da Cultura”. Fala como Ossaim se tornou o Senhor das Folhas e como cada orixá pegou a sua..

 

 

Veja também o post com o itan de Ossayin..Clique aqui

Folhas citadas no vídeo:

Algodão: ewé òwú (Gossypium barbadense)

Espada de Ogún: pèrègún (Dracaena fragans)

Dracaena sp. / Pau d'água

Folha de fogo: ewé inón (Clidemia hirta)

Folha de fogo

Dormideira: ewé ápéjè (Mimosa pudica)

Olho-de-santa-luzia: ojúoró (Pistia stratiotes)

Cabaceira: Igi Igbá (Crescentia cujete)

Jequiriti: wérénjéjé (Abrus precatorius)

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Garra de Exú (Martynia annua)

 

Garra de Exú

Planta que é muito conhecida nas casas de Candomblé pois é fundamental nos assentamentos do orixá Exú, e também dos chamados “catiços”, recebendo por isso os nomes de garra de exú, garra do diabo e unha de pomba-gira. Nesse caso, a parte utilizada é a semente que possui um aspecto bem interessante, realmente lembrando garras afiadas.  Suas sementes (ou favas) são utilizadas principalmente para dar força ao assentamento e garantir a proteção desejada. Não podemos esquecer que tudo que é pontiagudo e cortante pertence a Exú.

Embora a maioria dos adeptos do Candomblé utilize principalmente as sementes, suas folhas também possuem grande importância dentro do culto. São conhecidas como ewé àránbolè e podem ser empregadas no tratamento de processos convulsivos (oògùn gìrì), como a epilepsia.

Ewé àránbolè (Martynia annua)

Seu nome científico é Martynia annua e, segundo alguns estudos científicos, é fonte de extração de diversas substâncias como o ácido hidróxi-benzóico, ácido palmítico, ácido linólico e ácido oléico. O seu fruto teria propriedades anti-inflamatória e analgésica, suas raízes utilizadas no tratamento de picada de cobra e a planta toda teria ação anticonvulsivante.

 

TEXTO ESCRITO POR  JONATAS GUNFAREMIM

 

 

 

 

Que Exú nos proteja sempre com suas garras, e que elas estejam sempre afiadas para nos livrar de nossos inimigos..

 

 

Folhas Martynia annua

A pade Olonon e

Mo juba Ojisé

A pade Olonon e

Mo juba Ojisé

Awa sé awo,

Awa sé awo, awa sé awo

Mo juba Ojisé

 

E Elegbara

Elegbara Esú Aláyé

E Elegbara

Elegbara Esú Aláyé

 

 

Flor Martynia annua

Elegbara lewá, asé awo

Elegbara lewá, asé awo

Bara Olonon awa fún ago

Bara Olonon awa fún agò

 

Elegbara Esú

Ó Sá kere kere

Akesan Bara Esú ó Sá kere kere

Elegbara Esú

Ó Sá kere kere

Akesan Bara Esú ó Sá kere kere

 

Garra de pomba-gira

 

Vamos encontrar o Senhor dos Caminhos,

Meus respeitos àquele que é o Mensageiro,

Vamos nos encontrar com o Senhor dos Caminhos

E reverenciar o Mensageiro

Agradecemos ao Sacerdote,

Vamos cultuar, vamos cultuar

Reverenciamos o Mensageiro

 

Senhor da Força,

Senhor do Poder, Exu é o Dono do Mundo

Senhor da Força

Cumprimentamos o Chefe

 

O Senhor da Força é bonito, vamos cultuá-lo

O Senhor da Força é bonito, vamos cultuá-lo

Exu do corpo e Senhor dos Caminhos nos dê licença

Exu do corpo e Senhor dos Caminhos nos dê licença

 

Exu, Senhor da Força e do Poder

Faz cortes profundos e pequenos,

Akesan Exu do corpo, faz cortes profundos

Exú, Senhor da Força e do Poder

É baixinho

Akesan Exu do corpo é pequenino

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Oriká..

Ofó de proteção contra as Ìyàmi

(Fonte: Pierre Fatumbi Verger/ “Ewé”, 1996)

 

Òkikà

Idí l’ó ní kí osó àjé kí won ó dirù kí wòn ó máa lo

Òkikà l’ó ní kí won má yà s’ódò mi mó

Akikà l’ó ní won ó kó gbogbo erù won jáde nílé mi

Àjé òfòlé l’ó ní won kò níí lè fò lé mi

Igikígi ta egbò k’ó kan àsùrìn, yóò máa kú

Òkú igi náà ìgbùràmú lalè

Spondias mombin

 

 

 

 

Idí diz que tanto os bruxos quanto as bruxas devem fazer as malas e ir embora.

Òkikà diz que eles não devem voltar a mim nunca mais.

Akika diz que eles devem tirar toda a sua bagagem da minha casa.

Àjé ófólé diz que eles não conseguirão se empoleirar em mim.

Qualquer árvore que criar raízes para tocar a raiz de àsùrìn morrerá.

A raiz morta da árvore preencheu o espaço com a sua própria espessura.

 

Ewé Idí=  Terminalia glaucescens

Ewé Òkikà=  Spondias mombin

Ewé Akika= Lecaniodiscus cupanioides

Ewé Àjé ófólé= Croton zambesicus

Igi àsùrìn (Igi n’lá)=Entandrophragma candollei


 

 

 

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O peso das palavras..

 

A coroa do nosso Rei- Casa Branca do Engenho Velho- Salvador

“Amor é fogo que arde sem se ver;/É ferida que dói e não se sente;/É um contentamento descontente;/É dor que desatina sem doer”.

“Ler significa reler e compreender, interpretar. Cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam.”

Uma coisa fantástica de se conviver em comunidade é que cada um tem a sua forma de pensar e agir, ninguém precisa concordar o tempo todo com o que outro diz. Essa é uma das nossas maiores riquezas, conseguimos discordar e mesmo assim nos respeitar. Concordo totalmente que a escravidão sempre será uma coisa horrorosa e triste. Também concordo que as traduções são formas de interpretação dos fatos, que muitas vezes vão favorecer a visão daquele que interpreta..

 

Ayrá òjo mo pè re'se. A mo pè re'se.

Só discordo totalmente quando alguém afirma que é contra o uso, “interpretação” ou tradução da palavra escravo. Não acho que deixando de utilizar uma palavra iremos apagar o seu significado. A História nos ensina isso.. Em 14 de Dezembro de 1890 todos os papéis, livros de registros fiscais e de matrículas do período da escravidão no país foram queimados, por ordem de Rui Barbosa (Ministro da Fazenda). Embora existam outras explicações menos nobres, se diz que foi para que esse período tenebroso de nossa História fosse esquecido. Será que conseguimos esquecer? Claro que não, pelo contrário, a escravidão está mais viva do que nunca.

Por outro lado, essa tentativa de esquecimento gerou um problema muito sério.. Com a perda desses documentos foram perdidos os registros de procedência desses homens e mulheres que chegaram aqui na condição de escravos.. Embora trouxessem em sua alma todas as lembranças, não tinham mais como provar de onde vieram.. Isso faz com que atualmente seja muito difícil, quase impossível, para algum afro-descendente tentar provar legalmente que seu avô (ou bisavô) tenha sido escravo, ou ainda qual era a sua origem: Angola, Zambia, Nigéria, Benin, Savalu.. Gostaria muito de comprovar legalmente minha(s) origem(ns) africanas, adquirir dupla nacionalidade, mas como? Foi tudo queimado..

 

Placa de tombamento da Casa Branca. Resultado de muita resistência e luta.

No meu axé (Engenho Velho) costumamos realizar, no dia seguinte a festa do nome, a cerimônia do Panan, onde será feita as quebras das kizilas do iyawo. Uma das etapas dessa cerimônia é a compra do Iyawo, que é apresentado a todos como um escravo.. É feito uma espécie de leilão e aquele que der o maior lance fica com o iyawo. Para uma pessoa mais desavisada o ritual pode parecer um ato de violência e sem sentido. Expor alguém, como escravo, que absurdo.. Mas me recordo bem, meu pai sempre explicava a todos ao final do ritual: “um filho de santo (iyawo) não se vende e nem se compra, o valor de cada um é único e não há dinheiro que pague.” Aquele ritual nos fazia recordar de todo o sofrimento de nossos ancestrais, mas ao mesmo tempo também nos fazia mais fortes. Sabíamos que a partir daquele momento não estávamos mais sozinhos, tínhamos um orixá a nos proteger, fazíamos parte de toda uma comunidade, estávamos novamente ligados aos nossos ancestrais, sabíamos o nosso valor. Teríamos que continuar resistindo..

Embora saiba que a escravidão não ocorreu exclusivamente com os povos africanos, escrevo principalmente pensando nesse povo, já que são meus ancestrais mais próximos. Não gosto da palavra “matar” ou “sacrificar”, entretanto sei que sempre farão parte do culto, nas Casas de Candomblé, embora já existam pessoas querendo modificar isso também. Como oferecer determinadas oferendas a Ogún sem cantar; “èjè s’orò ‘ro Ògún pa o”? Quando uso a palavra eru como escravo, tenho o mesmo pensamento. Embora possam carregar uma simbologia difícil de ser entendida para alguns, faz parte da cultura que herdamos (que não é a cultura ocidental). E outra coisa, sabemos o porquê e quando as utilizamos..

Com relação à frase “O pássaro, é escravo de Ossain, ainda que seja livre”, estava apenas utilizando uma linguagem poética. Sou filho de Ogún, mas aprendi que não devemos levar tudo na ponta da faca. Existem várias formas de prisão, que não necessariamente acontecerão com correntes ou grades..

 

Oxum! Mãe do primeiro iyawo.. Senhora dos nossos corações.. Mãe do Amor..

Como nos diria Luiz Vaz de Camões: É querer estar preso por vontade;/É servir a quem vence, o vencedor;/É ter com quem nos mata lealdade./ Mas como causar pode seu favor/Nos corações humanos amizade,/se tão contrário a si é o mesmo Amor?

TEXTO ESCRITO POR  JONATAS GUNFAREMIM

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Erú, o escravo..

 

O pequeno òpéré voa e sempre retorna ao seu Senhor.. Òsaníyn. Desenho de Patrick de Ayrá

Apesar do ranço histórico que essa palavra carrega o termo “escravo” é amplamente utilizado na cultura africana. As ewé érú (também chamadas ewé òfá) são conhecidas como folhas escrava ou substitutas. Nesse caso a conotação não é pejorativa, mas sim que essa folha está intimamente ligada a principal, são parentes.

Durante a Asà Òsányìn dizemos o tempo todo: Eru aje!

Uma das traduções possíveis é “escravo das feiticeiras”. Estamos falando de Eleyé, as Senhoras do Pássaro, ao qual Osányìn está ligado. Eyé é a ave que está subordinada a Òsányin, a ele conta tudo. Eyé também presta serviços as Iya Mí Agbá, dizem que as mesmas se transformam em um. O opéré é uma ave, relacionada ao mito de Òsányin, voa alto, mas sempre retorna para o seu senhor, pousando em sua ferramenta ou se aninhando dentro da cabaça (ado). Logo é seu escravo, mesmo sendo livre.

Saci Pererê

Existe um mito (itan) que Òsányìn costuma ser acompanhado por outra entidade muito pequenina, e que às vezes também é descrita com uma só perna. Essa entidade seria Aronì. Os mesmos mitos citam Aroní como sendo escravo de Osányìn.. Em iorubá poderíamos, de repente chama-lo “Òsányìn sí kékeré”.. O pequeno filho de Ossaim..

Existe uma korin ewé que nos remete a essa divindade: O igi igi otá Aronì o/ Igi igi otá Aronì/ Ewé bo igi igi/ Ni a oró oògun man/Igi igi otá Aronì (A árvore é a pedra de Aronì, as folhas e a árvore conhecem os segredos da medicina e da mágia, a árvore é onde Aronì está assentado).

A palavra erú significa escravo, servo ou mensageiro, mas dependendo de como for escrita (e acentuada) pode ganhar vários significados: carga, peso, medo.. Vamos imaginar um rei, que não pode estar presente em um evento, manda a quem representá-lo? Seu mensageiro, que muitas vezes é um escravo.. Quando não conseguimos determinada folha, utilizamos a sua escrava (mensageira).

 

Xangô foi senhor de vários escravos

Embora a escravidão no Brasil tenha assumido um dos seus piores aspectos, já existia entre os povos africanos. A diferença crucial é que na África um escravo era respeitado.. Vários mitos contam como Xangô conquistava reinos e possuía diversos escravos. Pensar nessa palavra (escravo) sem pensar em seu contexto é o mesmo que pensar em Exú sem levar em conta o seu caráter ambíguo..

 

TEXTO ESCRITO POR  JONATAS GUNFAREMIM

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Igí Okinkan (Oriká)- Caja mirim/Spondias lutea

Spondias mombim- Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Árvore de força, local de morada de Ogún e de diversos voduns, é considerada um importante àtinsá vodun, chamada pelos Jeje akikon’tin. Aos seus pés são reverenciados os voduns Gun, Fá e Azanadò (Bessén).  Durante a festa do Gbòitá essa árvore costuma ser adornada com ojás brancos, recebendo diverssas homenagens. É interessante lembrar que durante o Kpólè, ritual que faz parte da festa e ocorre por vários dias, todos os voduns irão saudar as árvores sagradas

Oriká

(àtinsá) do barracão. Na ocasião da procissão do Gbòitá cabe a Gun carregar a oferenda do Gbòitá, seguido dos demais voduns. É uma cerimônia emocionante.

Outro fato interessante com relação a  cajazeira é que ela também é conhecida como Igí Eyé (Árvore do Pássaro) ou  Igí Ìyeyè (Árvore da Mãe (ou das Mães)). Segunda uma lenda, essa foi uma das árvores escolhidas pelas Iyá Mí Eleyé para pousarem e descansarem. Alí elas decidiram que concederiam felicidade ou infelicidade, conforme fosse o desejo de cada um. Suas folhas têm o poder de afastar as coisas ruins e atrair a sorte.

 

TEXTO ESCRITO POR  JONATAS GUNFAREMIM

 

Ewé oriká

 

A ela cultuamos e para elas cantamos:

 

E Ogun mo lo mo

Irè Ogun mo mo

Ewé òkiká kiki

Ogun mo lo mo

Irè Ogun mo

Òkiká kiki

Ogun mo lo mo

 

Caja mirim, cajazeira, cajá-miúdo, cajá amarelo, taperebá

Ogum é o orixá que voce conhece

Ogum, rei de Irê, que voce conhece

A folha de cajazeira nos comprimenta

Ogum a reconhece

Aquela que é reconhecida por Ogun de Irê

Okiká nos cumprimenta

Ogum que você conhece

 

Jardim Botânico do Rio de Janeiro

 

 

Ewé lorogún/ Abre-caminho (Lygodium volubile) Folha do Senhor dos Caminhos

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31 DE OUTUBRO.. DIA DO SACI

 

SACI PERERÊ

Hoje comemoramos em todo o território brasileiro o “Dia do Saci”, figura que povoa o imaginário popular e faz parte de nossa cultura brasileira. Existem diversas explicações para a sua origem, uma delas é que teria surgido entre populações indígenas e depois recebido a influência dos povos africanos, sendo então representado com uma perna só, com a pele negra, um gorro vermelho e com um inseparável cachimbo.

Seu arquétipo está associado ao de um menino, muito esperto e alegre, que está sempre disposto a realizar alguma traquinagem. Ele está a todo tempo pregando alguma peça em quem caminha pelas matas ou em casas próximas delas. Ele gosta de assustar os cavalos amarrando suas crinas, além de também esconder objetos domésticos. É muito famoso por assustar os viajantes à noite, assoviando pela mata, um assovio que ninguém consegue identificar de onde vem.. Dizem que quanto mais fraco for o assovio mais perto ele está..

Ossaiynsi Kekere.. O Saci Pererê..

 

Casa Branca do Engenho Velho

Embora suas brincadeiras possam deixar muitos de cabelo em pé, o Saci não é uma entidade mitológica má. Ele é apenas uma criança muito brincalhona. Um aspecto importante dessa entidade é que ele está associado ao conhecimento das matas, das folhas e seus mistérios. Segundo a crença popular ele conhece todo o tipo de remédio e bebericagem feita de folhas. Como guardião das matas todo aquele que penetra nas mesmas deve pedir a sua permissão, caso contrário irá ser perseguido com as suas traquinagens. A ele são oferecidos fumo de rolo e cachimbos..Ele adora! Segundo as lendas, o Saci nasce nos bambuzais (brotos), onde fica por sete anos. Depois disso ele vive mais 77 anos até morrer e virar uma orelha de pau (fungo).

 

Bambusa vulgaris (Dankó) Bambú

Conhecer as histórias e lendas desse garoto peralta nos remete instantaneamente a duas figuras do culto aos orixás: Exú e Ossaiyn. Exú, que também vive para pregar peças e utiliza um gorro preto e vermelho. Exú é aquele que faz o erro virar acerto e o acerto virar erro. O sete é um de seus números..Exú se desloca com a velocidade do vento.. Dizem que o saci caminha em cima de um redemoinho de vento..

 

Gunfaremim e o Saci kekere na Feira de São Cristóvão

São muitas semelhanças, entretanto é na figura de Ossayin que encontramos uma identificação imediata. Ossaiyn é o guardião do segredo das folhas, um de seus orikis diz que ele caminha com uma única perna, pois a árvore onde se escondem as folhas possui apenas um tronco.. A ele se deve fazer oferendas ao entrar nas matas, oferecendo muito fumo de rolo. Em seus assentamentos encontramos cachimbos, pois Ossaiyn adora fumar. A similaritude é tão forte que alguns pesquisadores chegam a afirmar que o nome Saci Pererê nasceu de uma expressão africana, Ossaiynsi Kekerê, que poderia ser entendida como “Pequenino filho de Ossaim”. Com o tempo ossaiynsi foi aglutinado e se tornou apenas saci.

 

Local de mistérios..

Outra figura que acaba entrando nessa história é a divindade africana (Tapá) conhecida como Gunokô, tendo origem correlata à divindade Ndako Gboya, cultuada particularmente entre os descendentes da Casa Branca. Seu culto é cercado de mistério, sendo conhecido por poucos. Gunokô surge no meio do bambuzal e é uma divindade das matas, ligado ao culto de Ogún e das folhas. Coincidência ou não as duas figuras apresentam inúmeras semelhanças, o que nos faz pensar que o Saci não seria apenas uma simples figura do nosso folclore..

 

TEXTO ESCRITO POR  JONATAS GUNFAREMIM

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O valor de todos nós..

 

Os pés que abraçam a Terra são os mesmos.. e Ela os recebe sempre da mesma maneira, abraçando a todos..

Todos têm o mesmo valor perante o Criador.. Alguns irão se destacar mais ou menos, mas o valor é o mesmo.. Aos nossos olhos (humanos), alguns podem merecer mais, outros menos.. Mas somente Ele saberá o que se passa no coração de cada um..

Uma cantiga muito conhecida de Oxalá nos ensina isso: “Elémówo alá si okan babá, É ma awo é ma awo ala isê” (Senhor que conhece o segredo guardado em nossos corações, sopro da vida). Quando Ele nos moldou, segundo o mito da Criação, tinha a intenção de fazer todos iguais, as diferenças acabaram surgindo depois.. A matéria prima foi a mesma (amon, a lama), depois é que foram acrescentados outros ingredientes. Esses ingredientes fizeram com que cada um adquirisse uma individualidade, mas não necessariamente que fizesse um ser mais valoroso que o outro.

 

Irmãos e amigos

As vezes penso que isso poderia explicar porque muitas vezes nos questionamos: Como é que o orixá não viu isso? Mas fulano fez um monte de besteira.. O orixá sabe o que foi feito, eles estã sempre atentos.. mas me parece que as vezes o peso da balança não é tão pesado como achamos.. sei lá é um pensamento meu.. É claro que não dá pra esquecer a ação e reação, mas aí já é outra discussão..

Penso que o valor que pode ser mensurado é o valor das ações, das atitudes que tomamos em relação a vida e aos outros que nos cercam. Nesse caso, devemos nos policiar e buscar valorizar as boas ações em nós mesmos, cuidar bem daquilo que prezamos.. Bem diz o poema Iorubá: “ní je gbé ‘se aje fún o se? Tojú ìwà re, ‘ore mi, Ìwà kò sí, eko d’ègbé, Gbogbo aiye ni ‘nfe ‘ni t’ó je rere” (quem confiará em você para negócios? Cuide de suas maneiras, meu amigo. Sem bons modos, a educação não tem valor. Todos amam uma pessoa que sabe se comportar).

A amizade é um dos maiores valores que podemos e devemos cultivar..

TOJÚ ÌWÀ RE ORE MI, TOJÚ ÌWÀ RE..

 

TEXTO ESCRITO POR  JONATAS GUNFAREMIM

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ABRAÇO AO JEQUITIBÁ

Abraço ao Jequitibá (Foto: Denilson Siqueira)

Foi um grande abraço em homenagem ao Jequitibá (Cariniana sp.) de Cachoeiras de Macacú. Ele é considerado a árvore mais antiga de Macacú. Sua idade está estimada entre 700 e 1000 anos! Ufa! Seu tronco é imponente e se destaca totalmente das demais..

É interessante ressaltar que o nome jequitibá tem origem tupi-guarani, significando “gigante da floresta”. Não é a toa, há registros de jequitibás com cerca de 60 metros de altura (equivalente a um prédio de 20 andares). Outro fato que justifica o seu nome é a sua longevidade, estão entre os representantes vivos mais antigos do planeta. Em São Paulo está localizado o Jequitibá mais velho do país, que mede 16 metros de circunferência e com idade estimada em 3.000 anos..

 

Durante a realização do “Abraço ao Jequitibá” em Cachoeiras de Macacu (RJ), o professor Jonatas José Silva fala sobre a relação simbólica que as religiões de matrizes africanas mantêm com as árvores.

 

Segundo Jonatas, a árvore é o canal que liga o céu e a terra, e é por onde transitam os orixás. No vídeo , ele também entoa uma cantiga em iorubá cuja letra e tradução são:

GBÁDÚRÁ ÒSÓNYÍN

E JÌN, E JÌN EWÉ Ó, E JÌN.
E JÌN, E JÌN EWÉ Ó, E JÌN.
E JÌN MERÉ-MERÉ ÒSÓNYÌN WA OÒGÚN.
E JÌN MERÉ-MERÉ ÒSÓNYÌN WA LÉ Ó.
MÁÀ LO BÁ INÓN NÍIGBÓ TI IGBÓ A BO,
MÁÀ LO BÁ INÓN NÍIGBÓ TI IGBÓ A BO,
WA DE OMI MÁÀ DÉ INÓN.
MÁÀ LO BÁ INÓN NÍIGBÓ TI IGBÓ A BO.

Vós vestes, vós veste-se com folhas, vós vestes.
Vós vestes, vós veste-se com folhas, vós vestes.
Òsónyìn vós nos deste hábilmente a magia
Òsónyìn vós nos deste habilmente a nossa casa
Nunca iremos com fogo às matas onde te cultuamos
Nunca iremos com fogo às matas onde te cultuamos
Nós iremos com água, nunca com fogo.
Nunca iremos com fogo às matas onde te cultuamos

 

Parque Estadual dos Três Picos/ Cachoeiras de Macacú (RJ)

Vídeo feito por: Wellington Lyra
Local: Jequitibá de Boca do Mato, Parque Estadual dos Três Picos, Cachoeiras de Macacu – RJ
Data: 27 de agosto de 2011

Informações e visitação: (21) 2649.6847 (Parque Três Picos)

 

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Paineira da Índia (Bombax ceiba)

Flores de Paineira da Índia (Bombax ceiba)

Tirada em frente a Vila Olímpica do Mato Alto, Jacarepaguá (Rio de Janeiro).

Tronco espinhoso característico das paineiras..

Floração exuberante.

Detalhe da flor.

 

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Aos olhos da poetiza.. Valeria Barbosa

“No meio da linha ele estica e se apluma. Se protege do cerol que pode o seu voo podar. Se percebe tal qual aranha na teia que mesmo sem tecer o enquadra e o transforma em equilibro entre o galho, o meio em fio e o fio acima por sob a tensão. Que fazer sendo frágil em um ambiente carcerário do meio? Pedir maleme a Ossain? Gritar por Xangô para dar mais compreensão ao ser ou apenas perder o olhar no espaço tecendo uma mera observação do infinito silêncio tendo o eco do vermelho de Oyá? Voar, voar… És a solução! para não se cortar com as armadilhas criadas sem a divina preservação. A Morte e a vida próximas e tão distintas na utilidade de existir, porém, ser alvo do predador em pleno reconhecimento do espaço é a forma mais inocente de olhar o infinito para projetar a liberdade de um voo.” Valéria Barbosa.

 

Valéria minha amiga você conseguiu traduzir com seu olhar de poetiza o olhar do passarinho.. Passarinho que bem poderia ser bicho homem.. Vamos ficar ligadinhos nos ceróis e os fios da vida que tentam nos impedir de abrir nossas asas e voar.. Um grande beijo e que Iyemonjá continue iluminando os seus pensamentos, sempre!

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