Erú, o escravo..

 

O pequeno òpéré voa e sempre retorna ao seu Senhor.. Òsaníyn. Desenho de Patrick de Ayrá

Apesar do ranço histórico que essa palavra carrega o termo “escravo” é amplamente utilizado na cultura africana. As ewé érú (também chamadas ewé òfá) são conhecidas como folhas escrava ou substitutas. Nesse caso a conotação não é pejorativa, mas sim que essa folha está intimamente ligada a principal, são parentes.

Durante a Asà Òsányìn dizemos o tempo todo: Eru aje!

Uma das traduções possíveis é “escravo das feiticeiras”. Estamos falando de Eleyé, as Senhoras do Pássaro, ao qual Osányìn está ligado. Eyé é a ave que está subordinada a Òsányin, a ele conta tudo. Eyé também presta serviços as Iya Mí Agbá, dizem que as mesmas se transformam em um. O opéré é uma ave, relacionada ao mito de Òsányin, voa alto, mas sempre retorna para o seu senhor, pousando em sua ferramenta ou se aninhando dentro da cabaça (ado). Logo é seu escravo, mesmo sendo livre.

Saci Pererê

Existe um mito (itan) que Òsányìn costuma ser acompanhado por outra entidade muito pequenina, e que às vezes também é descrita com uma só perna. Essa entidade seria Aronì. Os mesmos mitos citam Aroní como sendo escravo de Osányìn.. Em iorubá poderíamos, de repente chama-lo “Òsányìn sí kékeré”.. O pequeno filho de Ossaim..

Existe uma korin ewé que nos remete a essa divindade: O igi igi otá Aronì o/ Igi igi otá Aronì/ Ewé bo igi igi/ Ni a oró oògun man/Igi igi otá Aronì (A árvore é a pedra de Aronì, as folhas e a árvore conhecem os segredos da medicina e da mágia, a árvore é onde Aronì está assentado).

A palavra erú significa escravo, servo ou mensageiro, mas dependendo de como for escrita (e acentuada) pode ganhar vários significados: carga, peso, medo.. Vamos imaginar um rei, que não pode estar presente em um evento, manda a quem representá-lo? Seu mensageiro, que muitas vezes é um escravo.. Quando não conseguimos determinada folha, utilizamos a sua escrava (mensageira).

 

Xangô foi senhor de vários escravos

Embora a escravidão no Brasil tenha assumido um dos seus piores aspectos, já existia entre os povos africanos. A diferença crucial é que na África um escravo era respeitado.. Vários mitos contam como Xangô conquistava reinos e possuía diversos escravos. Pensar nessa palavra (escravo) sem pensar em seu contexto é o mesmo que pensar em Exú sem levar em conta o seu caráter ambíguo..

 

TEXTO ESCRITO POR  JONATAS GUNFAREMIM

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Igí Okinkan (Oriká)- Caja mirim/Spondias lutea

Spondias mombim- Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Árvore de força, local de morada de Ogún e de diversos voduns, é considerada um importante àtinsá vodun, chamada pelos Jeje akikon’tin. Aos seus pés são reverenciados os voduns Gun, Fá e Azanadò (Bessén).  Durante a festa do Gbòitá essa árvore costuma ser adornada com ojás brancos, recebendo diverssas homenagens. É interessante lembrar que durante o Kpólè, ritual que faz parte da festa e ocorre por vários dias, todos os voduns irão saudar as árvores sagradas

Oriká

(àtinsá) do barracão. Na ocasião da procissão do Gbòitá cabe a Gun carregar a oferenda do Gbòitá, seguido dos demais voduns. É uma cerimônia emocionante.

Outro fato interessante com relação a  cajazeira é que ela também é conhecida como Igí Eyé (Árvore do Pássaro) ou  Igí Ìyeyè (Árvore da Mãe (ou das Mães)). Segunda uma lenda, essa foi uma das árvores escolhidas pelas Iyá Mí Eleyé para pousarem e descansarem. Alí elas decidiram que concederiam felicidade ou infelicidade, conforme fosse o desejo de cada um. Suas folhas têm o poder de afastar as coisas ruins e atrair a sorte.

 

TEXTO ESCRITO POR  JONATAS GUNFAREMIM

 

Ewé oriká

 

A ela cultuamos e para elas cantamos:

 

E Ogun mo lo mo

Irè Ogun mo mo

Ewé òkiká kiki

Ogun mo lo mo

Irè Ogun mo

Òkiká kiki

Ogun mo lo mo

 

Caja mirim, cajazeira, cajá-miúdo, cajá amarelo, taperebá

Ogum é o orixá que voce conhece

Ogum, rei de Irê, que voce conhece

A folha de cajazeira nos comprimenta

Ogum a reconhece

Aquela que é reconhecida por Ogun de Irê

Okiká nos cumprimenta

Ogum que você conhece

 

Jardim Botânico do Rio de Janeiro

 

 

Ewé lorogún/ Abre-caminho (Lygodium volubile) Folha do Senhor dos Caminhos

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31 DE OUTUBRO.. DIA DO SACI

 

SACI PERERÊ

Hoje comemoramos em todo o território brasileiro o “Dia do Saci”, figura que povoa o imaginário popular e faz parte de nossa cultura brasileira. Existem diversas explicações para a sua origem, uma delas é que teria surgido entre populações indígenas e depois recebido a influência dos povos africanos, sendo então representado com uma perna só, com a pele negra, um gorro vermelho e com um inseparável cachimbo.

Seu arquétipo está associado ao de um menino, muito esperto e alegre, que está sempre disposto a realizar alguma traquinagem. Ele está a todo tempo pregando alguma peça em quem caminha pelas matas ou em casas próximas delas. Ele gosta de assustar os cavalos amarrando suas crinas, além de também esconder objetos domésticos. É muito famoso por assustar os viajantes à noite, assoviando pela mata, um assovio que ninguém consegue identificar de onde vem.. Dizem que quanto mais fraco for o assovio mais perto ele está..

Ossaiynsi Kekere.. O Saci Pererê..

 

Casa Branca do Engenho Velho

Embora suas brincadeiras possam deixar muitos de cabelo em pé, o Saci não é uma entidade mitológica má. Ele é apenas uma criança muito brincalhona. Um aspecto importante dessa entidade é que ele está associado ao conhecimento das matas, das folhas e seus mistérios. Segundo a crença popular ele conhece todo o tipo de remédio e bebericagem feita de folhas. Como guardião das matas todo aquele que penetra nas mesmas deve pedir a sua permissão, caso contrário irá ser perseguido com as suas traquinagens. A ele são oferecidos fumo de rolo e cachimbos..Ele adora! Segundo as lendas, o Saci nasce nos bambuzais (brotos), onde fica por sete anos. Depois disso ele vive mais 77 anos até morrer e virar uma orelha de pau (fungo).

 

Bambusa vulgaris (Dankó) Bambú

Conhecer as histórias e lendas desse garoto peralta nos remete instantaneamente a duas figuras do culto aos orixás: Exú e Ossaiyn. Exú, que também vive para pregar peças e utiliza um gorro preto e vermelho. Exú é aquele que faz o erro virar acerto e o acerto virar erro. O sete é um de seus números..Exú se desloca com a velocidade do vento.. Dizem que o saci caminha em cima de um redemoinho de vento..

 

Gunfaremim e o Saci kekere na Feira de São Cristóvão

São muitas semelhanças, entretanto é na figura de Ossayin que encontramos uma identificação imediata. Ossaiyn é o guardião do segredo das folhas, um de seus orikis diz que ele caminha com uma única perna, pois a árvore onde se escondem as folhas possui apenas um tronco.. A ele se deve fazer oferendas ao entrar nas matas, oferecendo muito fumo de rolo. Em seus assentamentos encontramos cachimbos, pois Ossaiyn adora fumar. A similaritude é tão forte que alguns pesquisadores chegam a afirmar que o nome Saci Pererê nasceu de uma expressão africana, Ossaiynsi Kekerê, que poderia ser entendida como “Pequenino filho de Ossaim”. Com o tempo ossaiynsi foi aglutinado e se tornou apenas saci.

 

Local de mistérios..

Outra figura que acaba entrando nessa história é a divindade africana (Tapá) conhecida como Gunokô, tendo origem correlata à divindade Ndako Gboya, cultuada particularmente entre os descendentes da Casa Branca. Seu culto é cercado de mistério, sendo conhecido por poucos. Gunokô surge no meio do bambuzal e é uma divindade das matas, ligado ao culto de Ogún e das folhas. Coincidência ou não as duas figuras apresentam inúmeras semelhanças, o que nos faz pensar que o Saci não seria apenas uma simples figura do nosso folclore..

 

TEXTO ESCRITO POR  JONATAS GUNFAREMIM

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O valor de todos nós..

 

Os pés que abraçam a Terra são os mesmos.. e Ela os recebe sempre da mesma maneira, abraçando a todos..

Todos têm o mesmo valor perante o Criador.. Alguns irão se destacar mais ou menos, mas o valor é o mesmo.. Aos nossos olhos (humanos), alguns podem merecer mais, outros menos.. Mas somente Ele saberá o que se passa no coração de cada um..

Uma cantiga muito conhecida de Oxalá nos ensina isso: “Elémówo alá si okan babá, É ma awo é ma awo ala isê” (Senhor que conhece o segredo guardado em nossos corações, sopro da vida). Quando Ele nos moldou, segundo o mito da Criação, tinha a intenção de fazer todos iguais, as diferenças acabaram surgindo depois.. A matéria prima foi a mesma (amon, a lama), depois é que foram acrescentados outros ingredientes. Esses ingredientes fizeram com que cada um adquirisse uma individualidade, mas não necessariamente que fizesse um ser mais valoroso que o outro.

 

Irmãos e amigos

As vezes penso que isso poderia explicar porque muitas vezes nos questionamos: Como é que o orixá não viu isso? Mas fulano fez um monte de besteira.. O orixá sabe o que foi feito, eles estã sempre atentos.. mas me parece que as vezes o peso da balança não é tão pesado como achamos.. sei lá é um pensamento meu.. É claro que não dá pra esquecer a ação e reação, mas aí já é outra discussão..

Penso que o valor que pode ser mensurado é o valor das ações, das atitudes que tomamos em relação a vida e aos outros que nos cercam. Nesse caso, devemos nos policiar e buscar valorizar as boas ações em nós mesmos, cuidar bem daquilo que prezamos.. Bem diz o poema Iorubá: “ní je gbé ‘se aje fún o se? Tojú ìwà re, ‘ore mi, Ìwà kò sí, eko d’ègbé, Gbogbo aiye ni ‘nfe ‘ni t’ó je rere” (quem confiará em você para negócios? Cuide de suas maneiras, meu amigo. Sem bons modos, a educação não tem valor. Todos amam uma pessoa que sabe se comportar).

A amizade é um dos maiores valores que podemos e devemos cultivar..

TOJÚ ÌWÀ RE ORE MI, TOJÚ ÌWÀ RE..

 

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ABRAÇO AO JEQUITIBÁ

Abraço ao Jequitibá (Foto: Denilson Siqueira)

Foi um grande abraço em homenagem ao Jequitibá (Cariniana sp.) de Cachoeiras de Macacú. Ele é considerado a árvore mais antiga de Macacú. Sua idade está estimada entre 700 e 1000 anos! Ufa! Seu tronco é imponente e se destaca totalmente das demais..

É interessante ressaltar que o nome jequitibá tem origem tupi-guarani, significando “gigante da floresta”. Não é a toa, há registros de jequitibás com cerca de 60 metros de altura (equivalente a um prédio de 20 andares). Outro fato que justifica o seu nome é a sua longevidade, estão entre os representantes vivos mais antigos do planeta. Em São Paulo está localizado o Jequitibá mais velho do país, que mede 16 metros de circunferência e com idade estimada em 3.000 anos..

 

Durante a realização do “Abraço ao Jequitibá” em Cachoeiras de Macacu (RJ), o professor Jonatas José Silva fala sobre a relação simbólica que as religiões de matrizes africanas mantêm com as árvores.

 

Segundo Jonatas, a árvore é o canal que liga o céu e a terra, e é por onde transitam os orixás. No vídeo , ele também entoa uma cantiga em iorubá cuja letra e tradução são:

GBÁDÚRÁ ÒSÓNYÍN

E JÌN, E JÌN EWÉ Ó, E JÌN.
E JÌN, E JÌN EWÉ Ó, E JÌN.
E JÌN MERÉ-MERÉ ÒSÓNYÌN WA OÒGÚN.
E JÌN MERÉ-MERÉ ÒSÓNYÌN WA LÉ Ó.
MÁÀ LO BÁ INÓN NÍIGBÓ TI IGBÓ A BO,
MÁÀ LO BÁ INÓN NÍIGBÓ TI IGBÓ A BO,
WA DE OMI MÁÀ DÉ INÓN.
MÁÀ LO BÁ INÓN NÍIGBÓ TI IGBÓ A BO.

Vós vestes, vós veste-se com folhas, vós vestes.
Vós vestes, vós veste-se com folhas, vós vestes.
Òsónyìn vós nos deste hábilmente a magia
Òsónyìn vós nos deste habilmente a nossa casa
Nunca iremos com fogo às matas onde te cultuamos
Nunca iremos com fogo às matas onde te cultuamos
Nós iremos com água, nunca com fogo.
Nunca iremos com fogo às matas onde te cultuamos

 

Parque Estadual dos Três Picos/ Cachoeiras de Macacú (RJ)

Vídeo feito por: Wellington Lyra
Local: Jequitibá de Boca do Mato, Parque Estadual dos Três Picos, Cachoeiras de Macacu – RJ
Data: 27 de agosto de 2011

Informações e visitação: (21) 2649.6847 (Parque Três Picos)

 

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Paineira da Índia (Bombax ceiba)

Flores de Paineira da Índia (Bombax ceiba)

Tirada em frente a Vila Olímpica do Mato Alto, Jacarepaguá (Rio de Janeiro).

Tronco espinhoso característico das paineiras..

Floração exuberante.

Detalhe da flor.

 

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Aos olhos da poetiza.. Valeria Barbosa

“No meio da linha ele estica e se apluma. Se protege do cerol que pode o seu voo podar. Se percebe tal qual aranha na teia que mesmo sem tecer o enquadra e o transforma em equilibro entre o galho, o meio em fio e o fio acima por sob a tensão. Que fazer sendo frágil em um ambiente carcerário do meio? Pedir maleme a Ossain? Gritar por Xangô para dar mais compreensão ao ser ou apenas perder o olhar no espaço tecendo uma mera observação do infinito silêncio tendo o eco do vermelho de Oyá? Voar, voar… És a solução! para não se cortar com as armadilhas criadas sem a divina preservação. A Morte e a vida próximas e tão distintas na utilidade de existir, porém, ser alvo do predador em pleno reconhecimento do espaço é a forma mais inocente de olhar o infinito para projetar a liberdade de um voo.” Valéria Barbosa.

 

Valéria minha amiga você conseguiu traduzir com seu olhar de poetiza o olhar do passarinho.. Passarinho que bem poderia ser bicho homem.. Vamos ficar ligadinhos nos ceróis e os fios da vida que tentam nos impedir de abrir nossas asas e voar.. Um grande beijo e que Iyemonjá continue iluminando os seus pensamentos, sempre!

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Ewé Ètó- Dracena Bambú (Dracaena surculosa)

 

Ewé ètó- Dracena bambú (Dracaena surculosa)

Planta africana muito bonita e extremamente ornamental, conhecida como dracena bambú e de nome científico Dracaena surculosa. Pertence a mesma família do nosso perégún (Dracaena fragans), ou seja, é uma Liliaceae. Nas casas de Candomblé é chamada por ètó. Folha ligada ao Senhor da Justiça, sua utilização nos garante vida longa e nos afasta das armadilhas de Ikú (a morte). Ètó nos traz saúde e vida próspera. Guardo sempre uma muda junto comigo.. Que o fogo de Sàngó possa arder sempre em nossos corações, aquecendo nossa vida e nos resguardando do frio de Ikú!

Ètó ó ní kí n’tó l’áyé

Èlà ó ní kí n’là sí ayé

Awáyémákùú kì í tètè kú

Òyèkú ìwòrì wá so mí di arúgbó.


Etó diz que eu devo continuar muito tempo na Terra.

Elá diz que eu devo ficar mais rico na Terra.

Awáyémákùú nunca morre cedo.

Òyèkú ìwòrì, venha e me faça chegar à velhice.

Asé! Asé! Asé!

 

TEXTO ESCRITO POR  JONATAS GUNFAREMIM

 

Folha de Xangô- Senhor do Fogo da Vida

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Folhas e Transe

 

Cipó douradinho (Banisteriopsis caapi)

Dentro dos cultos afrobrasileiros muitas vezes existe a necessidade de incorporação de determinados iniciados, mas isso não quer dizer de todos. No Candomblé, chamamos de Ogan e Ekeji os homens e mulheres, respectivamente, que não entram em estado de transe. É fato também que para que um orixá incorpore em seu filho existem algumas prerrogativas a serem cumpridas.. A primeira, a meu ver, é o orixá realmente querer. Digo isso porque muita gente entra em uma casa de Candomblé (e Umbanda), fica encantada com tudo, pois o xire (festa) realmente representa um dos encantos do orixá, e é nesse momento que essa pessoa deseja fazer parte daquela comunidade. Só que nós, seres humanos, somos meio imediatistas e achamos que assim que colocarmos uma roupa branca e entrarmos em uma roda para dançarmos pros orixás eles irão ao nosso encontro e o transe acontecerá.. Aí que às vezes mora o perigo, pois ficar encantado somente com a beleza das danças e cânticos não é suficiente, a meu ver..

Chacrona (Psychotria viridis)

Nossa relação com os orixás acontece ao longo de nossa vida, no nosso dia dia, nos sinais que eles nos dão o tempo todo. Porém, dentro da nossa Tradição, essa relação só vai ser plenamente estabelecida após a iniciação.. Antes dessa iniciação deve-se ir a uma mesa de jogo ou a um guia espiritual (no caso da Umbanda, pois muitas vezes quem trará as respostas é um Caboclo, por exemplo). Nessa consulta o orixá revelará se a pessoa nasceu para incorporar ou não. Após essa etapa, devemos saber respeitar o TEMPO DO ORIXÁ, pois é ele que irá escolher o momento em que desejará se manifestar em seu filho, não adianta querer apressar.. Isso também não é “receita de bolo”.. Tem gente que assiste uma festa pela primeira vez e “bola”, enquanto outras ficam anos freqüentando uma casa, até que seu orixá se manifeste. Existem ainda aquelas que, após ser constatado realmente através de um jogo que necessitam passar pela iniciação, para que o orixá retire a sua consciência serão necessários rituais específicos, para “trazer” o orixá.

Nesse caso, as folhas terão um papel fundamental, embora nem sempre sejam o único caminho a ser empregado. É interessante ressaltar também que, quando falamos retirar a consciência de um médium (aumentar a concentração), não podemos esquecer que existem diferentes graus de consciência, e que o orixá, quando é de seu desejo, saberá atuar perfeitamente.. A folha a ser utilizada também vai depender de muitos fatores individuais, que determinarão que folha e qual a quantidade a ser usada.

 

Cipó douradinho (Banisteriopsis caapi)

Existe uma infinidade de folhas que possuem atividade psicotrópica, como o cipó douradinho (Banisteriopsis caapi) e a chacrona (Psychotria viridis), utilizadas no vinho das almas (Ayahuasca). Essas plantas possuem princípios químicos ativos, que agem ao nível do sistema nervoso central, alterando o nosso estado de consciência. Embora possuam essa capacidade, fora de um contexto ritual, estabelecido através do CONHECIMENTO ANCESTRAL adquirido, são apenas plantas que provocam alucinações e alterações de consciência.

Não adianta, ao meu ver, alguém afirmar que basta tomar um chá de wérénjéjé, peregún ou amúnimúyè que o orixá irá chegar.. Isso dependerá de muito aprofundamento. E esse aprofundamento só pode acontecer através da vivência, do aprendizado, com pessoas devidamente preparadas. Afirmar determinadas coisas, sem um bom conhecimento de causa, acho extremamente imprudente e arriscado.. Aprendi com o meu pai que uma folha pode tanto aproximar um orixá, quanto afastar.. A folha que cura também pode machucar.. As melhores respostas para as nossas perguntas serão dadas através da nossa dedicação e vivência com o sagrado. A partir de pessoas sérias que saberão nos conduzir para esse mistério maravilhoso que é o orixá..

 

TEXTO ESCRITO POR  JONATAS GUNFAREMIM

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CANTO PARA OXALÁ

Mantra sagrado, uma voz potente e com um toque xamânico..

CANTO PARA OXALÁ

Mauricio Tizumba e Trio (Feat. Fabiana Cozza)

 

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Ninguém é dono da verdade..

 

Foto minha de Cattleya harrrisoniana - Orquídea

Postei esse texto em uma comunidade em que sou moderador e achei legal colocá-lo aqui. “Gente é sempre bom ressaltar que o nome da Comunidade é : Folhas Sagradas. Ora, embora a maioria dos participantes me pareça ser adepto de religiões de matriz africana (Candomblé, Umbanda, Catimbó e outras vertentes), a sacralidade das folhas não é exclusividade desse grupo religioso.

Grupos indígenas são grandes conhecedores de ervas e seus segredos, alguém já ouviu falar do caxiri, o mocororó, a ayahuasca, a famosa jurema? São bebidas poderosas e que guardam em si a força desse povo. Se tiverem a oportunidade experimentem.. E isso não passa exatamente pelo Candomblé.. A folha utilizada, entretanto, continua sendo sagrada.

 

Na minha casa..

Povos europeus também utilizavam diversas folhas para sortilégios e encantamentos, quem já conversou com um adepto da bruxaria moderna (wicka) sabe o que estou falando. As folhas são utilizadas no culto a Deusa (e ao Deus), simbolizando o elemento terra, por exemplo. Cada folha também possui cunho sagrado.. Tem o seu simbolismo e a sua força.

Quando cruzamos as informações, observamos que muitas acabam convergindo, ou seja, a utilização para determinada erva acaba se correspondendo nas diferentes vertentes religiosas (chamamos isso egrégora). Porém isso não é regra.. Mesmo dentro do Candomblé uma folha pode ser amplamente utilizada em uma Nação (Ketu, Angola, etc) e ser kizila para outra. Eu acredito que o que deve ser entendido é que a utilização de cada folha vai depender principalmente de como as nossas energias estão sendo trabalhadas. Por exemplo, por que será que não é costume oferecer Obí (Cola acuminata) para o orixá Xango, enquanto o mesmo  não necessariamente acontecerá com o vodun Hevioso.. Quando entramos no campo das restrições e particularidades que cada orí impõem a cada um de nós então.. Dá até nó na cuca.

Todo conhecimento é importante, essa comunidade nos ensina isso a todo tempo. Toda folha também carrega a sua força, isso aprendi com meu saudoso Pai. Muitas vezes me deparei com folhas que achava que fossem mero capim e que depois pude perceber que podiam salvar uma vida. O Candomblé se formou a partir do fragmento do conhecimento de vários povos africanos, que com o passar do tempo se aglutinou e se consolidou. O povo de Efon contribuiu, assim como o de Savalu, o de Angola e outros.. Isso explica o porquê de se dizer que Candomblé não é receita de bolo..

Vamos respeitar a opinião e a dúvida de cada um dos membros da comunidade. Acho que o objetivo da comunidade não é discutir quem sabe mais ou menos, muito menos ficar divagando sobre fundamentos (awo se aprende na casa de culto). Estamos aqui para trocar idéias, informações, e a partir daí, cada um segue com o que aprendeu ao longo da sua jornada, que é única.

Embora sejamos de diferentes vertentes litúrgicas gosto muito de cantar essa cantiga, pois tem o significado de nos lembrar como é importante estarmos sempre unidos: Fará imóra Olúwo F’ará imóra Araketu ‘Wúre Fará imóra! Vamos nos abraçar, porque somos todos irmãos! Axé!

Por fim, o Senhor que caminha pelas matas, com uma só perna, nos ensina através de seus ofós que a palavra tem

Haemanthus Multiflorus (Coroa Imperial)

força. Vamos ter cuidado com a palavra que sai de nossa boca, ela sempre chegará em alguém..” Motumbá irmãos!

 

TEXTO ESCRITO POR  JONATAS GUNFAREMIM

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Assim diziam os antigos..

CANDOMBLÉ NÃO É PARA TODOS E NEM TÃO POUCO É RELIGIÃO DE IMPROVISOS.. TUDO TEM UM PORQUÊ..

Meu pequeno Ficus sp. Pequeno no tamanho, mas já me acompanha há 15 anos.

BASTA SABER ESPERAR QUE AS RESPOSTAS VIRÃO..

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Ásèsé – Origem das origens (II)

Iroko, a ancestralidade aqui faz morada (Ficus sp.)

Quando alguém é iniciado no culto aos orixás, o elo que o liga ao seu ancestral mítico (orixá) é estreitado. A memória ancestral, muitas vezes esquecida, é reavivada. O caminho (Odú) pelo qual Orí escolheu vir ao Ayé é conhecido. O indivíduo passa a ser um Omo orixá (filho de orixá), seja iyawo, ogan ou ekejí. Não está mais sozinho, faz parte de uma comunidade (Egbé), assumindo responsabilidades para com o seu orixá e também aos demais orixás e filhos da casa.

A cada ano, e a cada obrigação paga, sua relação com o seu orixá olorí (Guardião) vai ficando mais forte. Seu axé irá aumentar, seu conhecimento e suas responsabilidades dentro da comunidade também. Ao final de seu sétimo ano de iniciação (Odun Ejè), poderá se tornar um Egbomi (irmão mais velho), podendo então receber um Oye (cargo), caso seu Odú assim determine. Nessa ocasião também, caso ainda não possua, poderá possuir um igbá orí (assentamento do Orí individual). É costume se dizer que só a partir desse momento o seu processo de iniciação está concluído, daí muitas casas só montarem o igbá orí nesse momento. Nos anos que se seguem são realizadas mais duas importantes obrigações, de 14 e 21 anos, onde o iniciado reafirma os seus votos para com o seu orixá e também com a comunidade ao qual está inserido.

Observamos que durante a vida religiosa, o iniciado é levado por meio de diversos rituais, a reiterar os laços que o ligam não só ao seu orixá, mas também a comunidade que o acolheu. Celebra-se a vida que se individualizou e também a vida que se integrou aos demais. Quando um iniciado morre, esses elos têm de ser desfeitos. O indivíduo passa de vivo (ara ayé) para morto (ara orún).

Àràbà/ Igi Olorún/ Gédé Hunsu (Ceiba pentandra)

O conjunto de rituais que são realizados com a finalidade de restituir o equilíbrio entre os ara aye e os ara orun é conhecido nas casas de tradição Ioruba pela denominação de Ásèsé (Àjèjè). Em outras nações esse ritual costuma receber outros nomes, como Sihun/Zerim (Jeje) e Mukundu/Ntambi (Bantu). É interessante frizar que os termos Sihun e Zerim, na língua fon, se referem também a instrumentos utilizados em substituição aos atabaques nos rituais funerários.

Embora muitos desconheçam, o Ásèsé é uma cerimônia obrigatória para todo aquele que se iniciou, independente do cargo que ocupava (iyawo, ogan, ekeji ou sacerdote). No processo de iniciação se criam e fortalecem os vínculos entre o iniciado, o orixá e a comunidade, quando ocorre a morte, esses laços PRECISAM ser desfeitos. Isso é importante tanto para aquele que vai embora do mundo material como para aqueles que permaneceram neste mundo.

De forma geral podemos dizer que no Ásèsé o caminho segue o inverso do realizado na iniciação. Para melhor compreender, devemos nos lembrar dos conceitos de Emí, Orí, Orixá e Egum. Quando morremos nosso Emí não é perdido, ele retorna para o seu Criador, o sopro vital deixa o corpo material, que se torna inerte. Já nosso Orí, carregando o nosso “destino” se desintegra, pois é único. Ninguém poderá herdar o Orí de outro, motivo pelo qual o igbá orí deverá ser desfeito. O orixá para o qual fomos iniciados, irá retornar para a Natureza, da qual é uma pequena parte. Caso seja de sua vontade, poderá continuar sendo adorado e retornar mais tarde, através de um novo nascimento. Nesses casos poderá até trazer um nome que o identifique, como Babá (Iyá) Túndé (o Pai/Mãe voltou). Esse orukó (nome) pode se estendido não apenas para o orixá que retorna, mas também para o filho desse orixá. Esse princípio, que se assemelha em parte com o conceito de reencarnação, é denominado pelos Iorubá como Àtúnwa (aquele que retorna). Entretanto, embora sejam conceitos semelhantes, diferem em diversos aspectos. Não podemos esquecer que a reencarnação pressupõe o retorno ao mundo de uma alma/espírito indivisível, enquanto na visão africana esse princípio gerador da vida é bem mais complexo.

Quando a vida deixa o corpo (ara) nosso egum também se desprende do mesmo. Esse Egúm carregará consigo, a memória do vivo, de todas as suas ações, devendo ser encaminhado de volta para o orún. Sua memória será sempre lembrada e exaltada pelos vivos, porém ele não pode continuar mais entre nós. Cabe ressaltar que existem nove oruns, dependendo de como se portou esse Egum no Aye ele será encaminhado para um dos nove orúns, podendo retornar ao aye novamente ou não. Segundo a tradição africana, um orixá pode retornar através de um novo nascimento e não necessariamente estar ligado ao retorno de um determinado Egum, ao qual ele antes estava vinculado..Para o africano, o retorno de um Egúm ao mundo dos vivos também está relacionado com o merecimento do mesmo, perante Olorún. Nossas atitudes e ações, sempre serão importantes. Embora não exista exatamente um

Ceiba pentandra (Jardim Botânico do Rio de Janeiro)

conceito de inferno Cristão, existem espaços no orun que abrigarão o Egum que não soube conduzir os seus passos, a exemplo do Òrún Àpàádi e o Òrun Burúkú. Da mesma forma existem espaços de paz e alegria como o Òrun Reree o Òrun Àlàáfíà.

Podemos concluir daí que, o Ásèsé não é um privilégio concedido a determinado iniciado, mas sim uma etapa importante de todo aquele que passou pelo processo de iniciação, seja sacerdote ou não. A realização correta desse ritual representa a possibilidade de um recomeço, de voltar a origem. Só após retornarmos a origem, perdendo a nossa existência individualizada no aye, poderemos estar preparados para recomeçarmos o ciclo da vida. Antes da vida recomeçar, cada coisa deve ser reposta em seu devido lugar. Isso me faz lembrar um itan sobre Ikú, a morte. “Quando Olòrún incumbiu Obatalá para criar o homem decidiu que o principal material a ser utilizado seria Amòn, a lama, mistura de terra e água. O Senhor do Pano Branco solicitou vários orixás para lhe trazerem Amòn. Entretanto cada vez que os mesmos se abaixavam e tentavam retirar Amòn, a terra chorava, pois estavam retirando um pedaço dela. Todos eles falharam na missão, sendo Ikú o único a retirar Amòn e entregar a Obatalá. Como recompensa, o Rei do Alá delegou a Ikú a tarefa de devolver à terra o corpo (ara) de cada homem e mulher assim que o sopro vital (Emí) retorna-se a Olòrún.” Por isso, toda vez que Emí é perdido e temos a aproximação de Ikú nosso orixá vai embora, retornando ao seu elemento fundamental. Esse itan justifica ainda a necessidade, segundo a crença Ioruba, de sermos enterrados. Amòn deve retornar para sua origem, para que possa novamente ser utilizada.. Ásèsé é exatamente isso, tornar possível uma volta à origem, sem Ásèsé não existe começo, pois o ciclo ainda não se completou..

Embora seja uma cerimônia que se estende a todo iniciado, a duração e a forma como ela irá ser conduzida difere, de acordo com o grau hierárquico, tempo de iniciação e quantidade de elos a serem desfeitos. Quanto maior seu status dentro da comunidade quando vivo, mais complexo deverá ser o ritual funerário. Infelizmente é triste observar a grande quantidade de iniciados que sequer tem a chance de terem a finalização de sua iniciação. Os motivos são diversos: desconhecimento da importância desse rito, falta de interesse em arcar com os custos (que costumam ser altos) e até mesmo por achar que o iniciado não era merecedor (??).

Folha da fortuna- A vida sempre se renova..

Com relação aos custos excessivos do ritual, isso se deve, a meu ver, a uma prática puramente mercantilista e que está cada vez mais freqüente entre alguns membros das religiões de matriz africana. Hoje em dia, só tem direito a um Ásèsé aquele que está disposto, e pode, pagar. O conhecimento é vendido, ou é utilizado como moeda de troca. A lei do merecimento e tempo de iniciação pouco importa. Uma das conseqüências disso é que, a visão deixada pelos nossos ancestrais, de comunidade, é cada vez mais suplantada pelos desejos individuais. A Tradição não dita mais as regras, cada qual segue suas próprias regras, de acordo com seus interesses momentâneos. Dessa forma a essência vai se perdendo, a memória vai ficando esquecida. Ora, sem memória, não existiria o Candomblé, uma vez que ele está enraizado no conceito de ancestralidade. Quando enfraquecemos a Tradição, estamos enfraquecendo a memória de nossos ancestrais, fazendo com que nossas origens sejam esquecidas. O Ásèsé nos ensina, se não podermos retornar a nossas origens, como poderemos sustentar nossa religião?

 

Dedico este texto a memória de meu Pai: José Flávio Pessoa de Barros (Pai Flávio).

Babá mimá sùn o –Meu pai, não durma, vigie todos os seus filhos!

 

Ásèsé, mo juba ; Ásèsé, Ásèsé o!;

Ásèsé o ku Agbà o!; Ásèsé , Ásèsé o!;

Ásèsé , érù ku Àgbà o!; Ásèsé , Ásèsé o!

 

Axexé eu lhe apresento meus humildes respeitos!;

Axexé eu venero e saúdo os mais antigos,

Axexé o escravo saúda os mais antigos.

 

IGÌ ÒPÈ (Ewé Marìwo )- Elaeis guineensis

Ò dúró ó Ìkú àiyé

Ò dúró Ìkú àiyé

Ìkú l’opa a àlà bàbá

Ìkú kò m’a kékeré

Ò dúró Ìkú àiyé

 

LEITURA INDICADA:

*Faraimará – o caçador traz alegria. Organização: Raul Lody e Cléo Martins.  Editora Pallas. ISBN: 85-347-0201-2

*Os Nago e a Morte. Autor: Juana Elbein dos Santos. Editora Vozes. ISBN-13: 9788532609236

*Àsèsé, o Reinício da vida. Altair Bento de Oliveira. togun@altair.togun.nom.br

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Ásèsé – Origem das origens (I)

“Se Ikú não chegar, adoremos Oxum

Se Ikú não chegar, adoremos Orixá

Se ikú realmente chegar, não adianta Ikú receber sacrifício”

Mawá, Mawá, Mawá

Vodunci ilé Mawá

Vodunci ilá Mawá

Lése Korré zó

 

Rio Macacú- Cachoeiras de Macacú (RJ)

Na religião dos orixás, inkicies e voduns ser iniciado significa acordar nossa memória ancestral esquecida e restabelecer os elos que nos trouxeram para esse mundo (Aye). É nesse momento que costumamos dizer que “nascemos” dentro da Religião. Esse nascimento marca outra forma de encarar e nos relacionar com o mundo que nos cerca, pois passamos a reconhecer não apenas a entidade mítica que nos confere individualidade (orí), como também aquela que herdamos de nossos ancestrais (orixá).

 

E fibò erù máa lo

Ìkú bá lè

Bá lè yìí bèrù

E fíbò èrù máa lo

Ìkú bá lè, a f’orí bá lè ó

Dentro da tradição Ketú, acredita-se que quando alguém vem ao mundo trás consigo quatro elementos vitais: emí, orí, orixá e egun. O emí é o sopro vital dado pelo Criador (Olorún), sem ele não existiria vida. Já orí representa nossa cabeça espiritual, moldada por Babá Ajalá, no Orún. Antes de nascermos no aye (Terra), nosso orí caminha muito, antes de aqui chegar. Esse caminho, escolhido por orí, nunca é esquecido e vai definir o que chamamos por Odú. Cada orí, portanto irá ter o seu próprio caminho, seu próprio odú. Durante essa viagem nosso Orí “aprende” a gostar de algumas coisas e também a se desagradar com outras. Cabe ressaltar que a partir do momento de nosso nascimento na Terra já temos um “destino” a cumprir, nossas potencialidade e limitações já podem ser conhecidas. Não se altera o odú, o máximo que podemos fazer é amenizar as situações que nos são desfavoráveis, uma vez que Orí tentará reproduzir no Ayé tudo por que passou, antes de aqui chegar.

 

Ò Ìkú bá lè ilè yó

Ìkú bá lè

Ò Ìkú bá lé ilè yó

Ìkú bá lè

Bá lé níre Éégun

Ní s’orò hò

Ìkú bá lè ilè yó

Ìkú bá lè ara nlo

 

Pé de cabaça

O orixá representa a nossa memória ancestral, tudo que carregamos de nossos antepassados. Essa herança é transportada não apenas no campo mítico, mas também no universo físico. Esse aspecto está ligado à Natureza e seus quatro elementos primordiais: Terra, Fogo, Água e Ar. Quando os nossos corpos, mítico e físico, são montados, eles trazem um pouquinho de cada elemento, sendo que alguns aparecerão em maior quantidade. Por exemplo, um descendente de Xango, terá certamente grande quantidade de fogo na sua formação, já um filho de Obaluaye carregará consigo a presença predominante do elemento terra. O orixá nos imprime a sua marca, expressa através de nossa constituição física e nossa personalidade.

 

Ò múnra se bí l’àgbà kése egbé

Ò múnra se bí ó l’àgbà kése egbé

Ènyin wa òkú ònòn kó ihò

Ènyin wa òkú l’àgbà kó se

Ènyin wa òkú ònòn l’àgbà kóró

Ènyin wa òkú l’àgbà kú egbé

 

Durante a nossa saída do Orún nos deparamos com o nosso Odú (caminho), entretanto, é na nossa caminhada no Ayé que iremos “tentar” colocar em prática tudo o que foi visto por Orí. Tudo que fazemos e vemos aqui no Aye, fica guardado com Egum. Egum aprende a amar, e também a rejeitar, determinadas coisas e pessoas. Ele representa nosso lado mais ligado ao aspecto material da vida. Por menos tempo que uma pessoa viva seu egum sempre levará alguma lembrança daqui da Terra.

 

Ò múnra se bí l’àgbà kése egbé

Ò múnra se bí ó l’àgbà kése egbé

Ènyin wa òkú ònòn kó ihò

Ènyin wa òkú l’àgbà kó se

Ènyin wa òkú ònòn l’àgbà kojá

Ènyin wa òkú ònòn l’àgbà kú igbó

A junção desses quatro elementos poderia ser comparada com o conceito Cristão de Alma (derivado do latim anima = que é animado), sendo então o responsável por dar vida ao corpo material (ara). Por outro lado, o conceito africano consegue explicar, de forma coerente, o porquê de sermos tão diferentes uns dos outros. Embora o Emí seja o mesmo sopro divino para todos, e duas pessoas pertençam ao mesmo orixá, jamais elas possuirão o mesmo Orí e nem tão pouco o mesmo Egum. Cada ser criado é único.

Flor da cabaça

 

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JOSÉ FLÁVIO PESSOA DE BARROS

Miguel Couto

José Flávio Pessoa de Barros foi um grande pesquisador da cultura afro-brasileira. Conseguiu, através de muito trabalho e esforço, se destacar não só no meio acadêmico, como também no campo religioso. Iniciado para Oxaguian e filho da saudosa e lendária Iyalorixá Nitinha de Oxum, descendente do Ilê Asé Iyá Nassô Oká (Casa Branca do Engenho Velho) foi o fundador do Ilé Asé Omí Iwí Odara, localizado em Cachoeiras de Macacú (RJ). Nessa casa, iniciou diversos filhos no culto aos orixás. Foi professor e escritor, tendo como especialidades as áreas de Antropologia das Religiões, Religiões Afro-Brasileiras e Etnobotânica.

Na sua formação acadêmica podemos citar:

1969 – graduação em Direito, Universidade Cândido Mendes

1971 – graduação em Ciências Físicas e Biológicas, Universidade Gama Filho

1974 – especialização em Antropologia Biológica e Arqueologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro

1983 – doutorado em Antropologia, Universidade de São Paulo

1986 – pós-doutorado, Universidade de Paris.

Foi autor de diversos livros, onde merecem destaque:

*A Galinha d’Angola: Iniciação e Identidade na Cultura Afro-Brasileira. Arno Vogel, Marco Antonio da Silva Mello, Rio de Janeiro: Pallas, 1993.

*O Segredo das Folhas: Sistema de Classificação de Vegetais no Candomblé Jêje-Nagô do Brasil. Rio de Janeiro: Pallas: UERJ, 1993, 1997, ISBN 85-347-0024-9

*Ewe Orisa: Uso Litúrgico e Terapeutico de Vegetais. Bertrand Brasil, 2000, ISBN 8528607445

*Na Minha Casa: Preces aos Orixás e Ancestrais, Pallas, 2003, ISBN 8534703523

*A Fogueira de Xangô, o Orixá de Fogo, Pallas, 2005, ISBN 8534703507

*Banquete do Rei-Olubajé, Pallas, 2005, ISBN 8534703493

Ilé Asé Omí Iwí Odara - Cachoeiras de Macacú

 

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